A RESOLUÇÃO

Helena Roseta propôs no Congresso do PS um golpe de Estado: mesmo que no referendo do aborto o não voltasse a ganhar e não votassem os eleitores suficientes para o tornar vinculativo, o PS deveria aprovar a lei que o povo recusara. Já hoje, afirmou que está há 23 anos à espera que o problema se resolva.

Este súbito ataque de bloquismo merece dois comentários. O primeiro é o de há uma esquerda anti-democrática que está à espera da melhor oportunidade para trair o voto popular, sempre que o voto popular não fôr do seu agrado. O segundo tem a ver com a resolução. Resolver o problema para a esquerda anti-democrática é só a resposta sim. Pelas cabeças iluminadas desta esquerda ou se resolve a bem ou se resolve a mal. Mas resolver é liberalizar o aborto.

Enquanto não conseguirem não desarmam. Daí que eu faça já uma proposta. Se acaso o sim ganhar, que se constitua um movimento para lutar por um novo referendo daqui a oito anos, para resolver outro problema. Será este o problema da violação da vida humana que resultará da eventual liberalização. Há sempre problemas por resolver. Mas há uns mais importantes que outros.
(publicado no Tomarpartido)

Comentários:
Uma nota: a ênfase não deve ser colocada em se resolva mas sim em o problema.

A verdade é que, para algumas pessoas, o problema reside em as mulheres poderem ser perseguidas, julgadas e condenadas por abortarem, independentemente das circunstâncias.
Para estas pessoas, os custos (que levarão mulheres a optarem por métodos menos seguros (o que constituirá uma diferenciação social) e as possíveis complicações para a saúde da mulher são meros pormenores que até podem ser usados para defender o "sim" mas não são o problema.

Como a despenalização do aborto a pedido não reduzirá o número de abortos legais ou clandestinos (na realidade, irá aumentá-los) nem reduzirá os problemas de saúde resultantes de abortos (porque a esmagadora maioria dos abortos que geram complicações são espontâneos), a estratégia nos últimos 8 anos tem sido a de falar de uns problemas com que todos se preocupam (mesmo que não lhes conheçam os detalhes) e numa "solução" (para outro problema) como se esta resolvesse os primeiros.

Quanto à esquerda anti-democrática, a surpresa residirá unicamente no facto de Helena Roseta ter alinhado pelo pior exemplo de falta de respeito pelos eleitores e pelo processo democrático.

E, se o "sim" ganhar por pouco e a Lei fôr mudada, um novo referendo dentro de 8 anos fará todo o sentido.
 





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