Aprender com os erros dos outros

A experiência daqueles que já passaram, ou ainda vivem, uma determinada situação pode ser um dado precioso para as nossas tomadas de decisão, especialmente em assuntos tão complexos como é este do aborto. Porque não tem sentido cairmos nos erros que outros já cometeram, recomendo a quem está de boa fé que se debruce sobre a obra do Dr. Bernard Nathanson.

O texto abaixo, que tentei traduzir o mais fielmente possível, é um dos seus mais elucidativos depoimentos: “Confessions of an Ex-Abortionist”, incluido na sua autobiografia “The Hand of God: A Journey from Death to Life by the Abortion Doctor Who Changed His Mind”, escrita em 1997.

Feliz Natal para todos.


CONFISSÃO DE UM EX-ABORTISTA
Dr. Bernard Nathanson

Sou pessoalmente responsável por 75.000 abortos. Este facto legitima as minhas credenciais para vos falar com alguma autoridade sobre o assunto. Eu fui um dos fundadores da National Association for the Repeal of the Abortion Laws (NARAL) [Associação Nacional para a Revogação das Leis do Aborto] nos Estados Unidos em 1968. Uma sondagem de opinião isenta mostraria que nessa altura a maioria dos americanos eram contra a liberalização do aborto. Contudo, no espaço de cinco anos conseguimos convencer o supremo tribunal americano a emitir a decisão que em 1973 legalizou o aborto em toda a América e, para todos os efeitos, praticávamos o aborto a pedido até à altura do nascimento. Como o fizemos? É importante que se compreenda as tácticas envolvidas, porque foram utilizadas por todo o mundo ocidental com uma ou outra modificação, com o objectivo de alterar a lei do aborto.
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A primeira táctica chave era conquistar a comunicação social
Conseguimos persuadir a comunicação social de que a causa da liberalização do aborto era liberal, iluminada e sofisticada. Sabendo que, se fosse feita uma sondagem honesta, sairíamos largamente derrotados, fabricámos pura e simplesmente os resultados de sondagens fictícias. Anunciámos à comunicação social que tínhamos efectuado sondagens e que 60% dos americanos estavam a favor da liberalização do aborto. Esta é a táctica da mentira auto-sustentada. Poucas são as pessoas que querem estar em minoria. Fabricámos o número de abortos ilegais feitos anualmente nos Estados Unidos de modo a despertarmos a simpatia suficiente para conseguirmos vender o nosso programa de aborto livre. Os números reais eram próximos dos 100.000 mas o número que sistematicamente dávamos à comunicação social era de 1.000.000. A repetição de uma grande mentira é geralmente suficiente para convencer o público. O número das mulheres que morriam por aborto ilegal rondava os 200 a 250 anuais. O valor com que sistematicamente alimentávamos a comunicação social era de 10.000. Estes falsos valores enraizaram-se na consciência dos americanos, convencendo muita gente de que era imperioso dar cabo da lei do aborto. Um outro mito com que alimentámos o público através da comunicação social era que a legalização do aborto significaria apenas que os abortos que eram então feitos de forma ilegal passariam a ser feitos legalmente. O facto é que, evidentemente, o aborto está a ser usado hoje nos Estados Unidos como o principal método contraceptivo e o número anual de abortos aumentou de 1.500% desde a entrada em vigor da lei.

A segunda táctica chave era a jogada da Igreja Católica
Acusávamos sistematicamente a Igreja Católica e as suas “ideias sociais retrógradas” e apontávamos a hierarquia Católica como o vilão que se opunha ao aborto. Este tema era tocado até à exaustão. Alimentávamos a comunicação social com mentiras do tipo “todos nós sabemos que a oposição ao aborto está na hierarquia e não na maioria dos Católicos” ou “as sondagens provam sempre que a maioria dos Católicos pretende a alteração da lei do aborto”. E a comunicação social metralhava tudo isto ao povo americano, persuadindo-o de que aqueles que se opunham à liberalização do aborto estariam sob a influência da hierarquia Católica e que os católicos que eram a favor do aborto eram iluminados e progressistas. Um efeito desta tática era que não havia nenhum grupo não Católico a opor-se ao aborto. O facto de que outras religiões, cristãs ou não cristãs, se opunham (e ainda se opõem) monoliticamente ao aborto, era sistematicamente suprimido, assim como as opiniões dos ateus que eram pró-vida.

A terceira táctica chave era denegrir e suprimir toda a evidência científica de que a vida começa na concepção
Perguntam-me frequentemente o que me fez mudar de opinião. Como é que mudei do proeminente abortista até ao militante pro-vida? Em 1973, passei a director da obstetrícia num grande hospital em Nova Iorque e tive de montar uma unidade de investigação pré-natal, ainda nos primórdios de uma excelente nova tecnologia que, hoje em dia, é utilizada diariamente para o estudo do feto no útero. Uma das tácticas pró-aborto favoritas é insistir que é impossível definir quando começa a vida; que a questão é teológica ou moral ou filosófica, tudo menos científica. A fetologia torna inegavelmente evidente que a vida começa na concepção e requer toda a protecção a que qualquer um de nós tem direito. Por que é que alguns médicos americanos, intimamente ligados às decobertas da fetologia, se desacreditam ao realizar abortos? É uma questão de simples aritmética: a 300 dólares de cada vez, 1.55 milhões de abortos significam uma indústria que gera anualmente 500.000.000 de dólares, dos quais a maior parte entra no bolso do médico que faz o aborto. É claro que o aborto livre é a destruição propositada daquilo que é inegavelmente uma vida humana. É um acto inadmissível de violência mortal. Temos de aceitar que uma gravidez não planeada é um dilema terrivelmente difícil, mas procurar a sua solução num acto deliberado de destruição, é desprezar as enormes capacidades do engenho humano, e deixar que o bem público se renda à clássica resposta pragmática para os problemas sociais.

Como cientista eu sei (não é apenas uma questão de acreditar) que a vida humana começa na concepção. Apesar de não ser formalmente muito religioso, acredito com todo meu coração que haverá uma divindade que nos manda decretar o fim incondicional e irreversível deste crime infinitamente triste e vergonhoso contra a humanidade.

Comentários:
Feliz Natal Manel!
 
Parece que as práticas pró-aborto não mudam muito de país para país.

Uma mulher
 
o sr decidiu portanto enriquecer a fazer abortos e depois, no fim de 75000 abortos é que se lembrou que se calhar não era muito correcto?extraordinário! a coerencia de tudo isto é admirável!

"A primeira táctica chave era conquistar a comunicação social" - mas não é exactamente isso que o não está a fazer também?

"A segunda táctica chave era a jogada da Igreja Católica" - ouviu este argumento muitas vezes, desde novembro? eu não.

"A terceira táctica chave era denegrir e suprimir toda a evidência científica de que a vida começa na concepção" - mas que evidencia??não conheço um unico médico (e conheço muitos que defendem o não) que afirme ter evidencias cientificas de que a vida começa na concepção!!

É de salientar ainda que este Sr quando questionado acerca de controlo da natalidade respondeu que era contra, por dois motivos, um deles uma era uma questão de fé (converteu-se ao catolicismo, tendo sido baptizado em 1996) o outro motivo era de ordem ética e moral, dizendo que acabar com a unica finalidade de uma função, então acabamos por perverter essa função (ou seja a unica finalidade do sexo é a reprodução, portanto qualquer meio que obste à fecundação é uma perversão).
 
Caro Anonymous de 27/12/06 18:49
Por favor tente informar-se devidamente quanto ao pensamento da Igreja Católica sobre o amor e a sexualidade, fazendo um esforço para se libertar de preconceitos (se os tiver). Irá então descobrir que não corresponde ao que diz (ou ao que diz que o Dr. Nathanson diz).
 
Sr. Anónimo, apesar de um pouco tardiamente, não quero deixar de lhe responder.

"...no fim de 75000 abortos é que se lembrou que se calhar não era muito correcto..." - É verdade. Chama-se a isso arrependimento. Sabe o que é? Essencialmente, é reconhecermos quando cometemos um erro grave, ao contrário de o tentarmos legalizar para limparmos a consciência.

"A primeira táctica chave era conquistar a comunicação social - mas não é exactamente isso que o não está a fazer também?" - Refere-se a tentarmos fazer chegar a todos a mensagem do "não", ou pretende que também enviamos mentiras para os jornais?

"...a jogada da Igreja Católica - ouviu este argumento muitas vezes, desde novembro? eu não" - Engraçado! Por onde é que tem andado? E você próprio, mesmo aqui neste seu comentário, volta a utilizar essa mesma jogada.

"...a evidência científica de que a vida começa na concepção - mas que evidencia??não conheço um unico médico (e conheço muitos que defendem o não) que afirme ter evidencias cientificas de que a vida começa na concepção!!" - Não sei o que é para si uma evidência científica mas olhe que lhe será muito difícil encontrar um documento científico minimamente sério que lhe prove que não existe um ser humano no útero da mãe seja qual for o tempo de gestação em causa.

Relativamente ao seu último parágrafo, a questão é mesmo essa que refere. Este senhor, para quem toda a barbaridade contra o feto era aceitável, acabou por mudar radicalmente a sua vida e a sua maneira de pensar, quando tomou plena consciência do terrível crime que tinha andado a cometer e a fomentar ao longo de tantos anos. Se essa mudança radical foi longe demais, só a ele compete decidir e não nos diz respeito. De qualquer forma, quando ele escreveu este artigo ainda estava a meio desse processo e não era "formalmente muito religioso", tal como ele afirma no próprio artigo.
 





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