A Opção

Os EUA, a França e outros países contam já com alguns anos de aborto livre.
As histórias que nos chegam de algumas mulheres que fizeram abortos são de tal maneira impressionantes que nos levariam facilmente a concluir que o aborto foi a melhor coisa que lhes podia ter acontecido. Algumas acreditam até que os seus abortos foram “godsends”.
Porque será?
Podemos imaginar as razões – não somos insensíveis.
Muitas mulheres são novas, temem desesperadamente a reacção da família e da sociedade à sua gravidez precoce, não são capazes de suportar a vergonha, diante dos amigos, dos pais e da comunidade (muitas vezes pequena) em que vivem. Umas vezes porque não querem deixar de estudar, e a ideia de ter que passar por noves meses de gravidez, algumas vezes cheios de problemas, e depois entregar o bebé para adopção, dá muito trabalho e não estão para isso. Outras vezes porque querem a todo custo ocultar aquele segredo: foram violadas. Ou então porque não querem perder os seus empregos, ou não querem abdicar de uma potencial( com ainda menos potencialidade que a vida do embrião!!) carreira profissional. Ou simplesmente porque são pobres.
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Não podemos quantificar ou tentar expressar o seu desespero.

Estas mulheres estão, inclusivamente, dispostas a correr riscos de infertilidade futura, de hemorragias e de outros problemas de saúde, de sofrerem o drama psicológico do arrependimento e da culpa, e até de serem julgadas pelo seu acto – se fôr caso disso - só para pôr um fim àquela gravidez maldita!

E isto não significa que o aborto não lhes cause pânico idêntico. Acredito que sim.
O que significa é que o terror que lhes inspiram as outras alternativas é ainda maior! E por isso o aborto passa a ser “uma opção”.

Numa sociedade como a nossa em que o materialismo vindica todos os protagonismos, em que o poder de escolha é sagrado e resulta, na maior parte das vezes, em atitudes ridiculamente egoístas. O culto de tudo o que é humano – i.e. próprio do Homem – é ridicularizado a todo o custo; quase não nos chocamos com a violência.
No meio de tudo isto, quase não valeria a pena discutir a necessidade do aborto clínico.
O aborto está presente nesta sociedade acomodada no facilitismo, conformada com a pobreza, que não quer saber da velhice, que desconhece o valor da solidariedade e não se importa de viver com o pessimismo geral.
O aborto vai continuar, legal ou ilegal, enquanto continuarmos a construir e a aceitar passivamente estas condições que levam as mulheres a recorrer às clínicas de abortos, como se fossem abrigos, ou esconderijos!
Trabalhar pela liberalização do aborto é desperdiçar esforços (e dinheiros!) que deveriam com muito maior utilidade ser afectados à correcção daquelas mesmas situações. Defender o aborto é defender os responsáveis pela opressão das mulheres, i.e dos violadores, das entidades empregadoras, dos planos de segurança de social que “desincentivam” os nascimentos.

Acredito numa sociedade em que as crianças têm um educação sexual séria que lhes permite tomar decisões inteligentes e esclarecidas;
Numa sociedade em que as raparigas são educadas de maneira a serem emocionalmente fortes para fazer frente às pressões sociais, à tendência generalizada para ter relações sexuais precoces com rapazes que não se interessam pelas possíveis consequências da sua actividade sexual;
Numa sociedade em que se trabalhe para mitigar – e eliminar – aquelas condições que levam as mulheres a escolher o aborto: a ignorância, a pobreza, a violação e os abusos sexuais, a mentalidade do mundo do trabalho que pressupõe sempre que as mulheres têm menos capacidades que os homens só por terem esta (in)aptidão para serem mães, a discriminação dos deficientes e as atitutes sociais que condenam as mulheres só por levarem uma gravidez não planeada até ao fim...

Quero acreditar numa sociedade em que a expressão “pela escolha” pode consubstanciar a convicção – não necessariamente religiosa, mas profunda - de que as mulheres devem poder escolher... a Vida.

Comentários:
Bem, este deve ser o post mais bem escrito que por aqui passou nos últimos tempos. Não concordo com as ideias veiculadas mas pelo menos não faz uso dos argumentos baratos do costume.
 
Deduzo das suas últimas palavras que, em última análise, é a favor do Sim, e que se não vota no Sim é apenas porque não acredita nesta sociedade que diz ser facilitista e opressiva das mulheres.

Argumento pernicioso. Inteligente mas facilmente pervertível. É que se a sua convicção pelo "não" é sobretudo pragmática e ao mesmo tempo invoca o valor universal (e portanto intemporal e não-pragmaticista) da vida, gera-se um paradoxo difícil de resolver.

Sumariamente, não confia nas outras pessoas, embora lhes reconheça a sua liberdade. Penso algo semelhante, com uma ligeira diferença: acredito num mundo em que não passa sequer pela cabeça de mulher alguma a possibilidade de abortar. (tal como roubar ou matar, etc).

No entanto, como disse Assunção Cristas no post seguinte, tanto o Sim como o Não provavelmente desejam o mesmo. O que difere é precisamente o método. O não é repressivo, o sim é leviano.

A Vida versus a Liberdade.

Difícil de digerir, especialmente num país que preza tanto a liberdade do 25 de abril mas que ao mesmo tempo é tão católico...
 
Cara fragmentada:
Supondo que apenas os argumentos do Não que levam em conta o interesse da mulher (que os há) são válidos e que todos os outros são "baratos" (nomeadamente os que tocam aos interesses do embrião, que eu acho que são igualmente racionais), então não entendo o seu comment. Porque todos os que têm escrito neste blog (tirando um ou outro comment em posts mais irados) parecem-me defender, desde o princípio, tudo o que aqui está escrito. Devo recordá-la que muitas instituições que ajudam as mulheres e as acompanham durante e após gravidezes complicadas ou não desejadas foram criadas pelo movimento do Não após o 1º referendo? Que nós nos sentimos empenhados em prevenir o aborto tomando quaiquer medidas necessárias para ajudar a criança E a mãe? E que consideramos que o despenalização do aborto, longe de resolver o problema, apenas nos afunda mais nele?
Cumprimentos
 
Cara Sara excelente post, gostei muito da sua posição!; Senhor Barba Rija não concordo consigo: o sim não é leviano, é democrático - os "nãos" e os "sins" poderão viver lado a lado - pacificamente ou não, há reservas... o sistema democrático tem as suas lacunas como todos os outros -; todos passaremos a (co)existir dentro do mesmo espaço judicial, jurídico, público e social. Os que defendem o não poderão continuar a fazê-lo e no caso de serem mulher não recorrerem a um IVG; todos os que defendem o "sim" poderão defendê-lo igualmente, e nomeadamente as mulheres, sabem que na "triste" eventualidade de terem de recorrer a uma IVG, serão recebidas em condições humanas, vigiadas por médicos e que não encontrarão uma penalização judicial/jurídica.
bem sei que a sua posição está espelhada nesta afirmação:"acredito num mundo em que não passa sequer pela cabeça de mulher alguma a possibilidade de abortar." Percebo o que quer dizer, também acho que o Estado deve fazer muito mais, do que faz, em matéria de planeamento familiar; mas eu também acredito num mundo que não penalize as mulheres e que não "teime" em pensar que o recurso ao aborto é feito de ânimo leve, sem o mais pequeno problema, e por motivos exclusivamente "levianos".

cumprimentos R.
 
Cara R.
Subscrevo o que diz relativamente ao Estado, mas acreditar num mundo que não "teime em pensar que o recurso ao aborto é feito de ânimo leve e (...) por motivos absolutamente levianos" não tem lógica no sentido em que há efectivamente mulheres que o fazem (o nosso problema consiste em não saber se são muitas ou poucas, pois não existe, infelizmente, um espelho para a alma).
A R. pede-nos para confiar nas mulheres e na sua consciência... mas então poderíamos acreditar na consciência de toda a gente (homens E mulheres) para tomar TODAS as decisões. Tal não é possível e o mecanismo regulador chama-se Lei. Eu, pessoalmente, tenho algumas dificuldades em confiar em algumas mulheres que defendem o Sim, dados os argumentos puramente egocêntricos e hedonistas que apresentam (os clássicos "É o nosso corpo", "Vocês não mandam no NOSSO corpo" e "o aborto é um DIREITO da mulher)... eu sei que a R. age de boa fé mas não é suficiente para me fazer confiar, lamento...
Cumprimentos
 
"Muitas mulheres são novas, temem desesperadamente a reacção da família e da sociedade à sua gravidez precoce, não são capazes de suportar a vergonha, diante dos amigos, dos pais e da comunidade (muitas vezes pequena) em que vivem. Outras vezes porque querem a todo custo ocultar aquele segredo: foram violadas. "

Na perspectiva do Não, não há que hesitar - fizerem aborto, vamos julgá-las.
Mais nada.
 
Cara bluesmile:
Efectivamente não há que hesitar... ajudem-se essas mulheres na gravidez e a criar a criança ou então previnam-se essas situação através de intervenções mais profundas na sociedade! Entre isto e o aborto realmente não há que hesitar.
Mais nada (porque nós somos "simplistas").
Cumprimentos
 
caro Kephas

E porque não confia nas entidades competentes que vão regular o processo do aborto? Ou acredita que o aborto vai ser esquema "à vontade do freguês?" eu penso que o referendo pergunta pela despenalização não pela liberalização, e é nisso que eu acredito. A lei ainda nem foi constituída, (portanto não posso discutir sobre os procedimentos ou sobre o que se vai passar); e só o será caso o resultado do referendo seja favorável ao "sim"; Como tal, não acredito que só vá constar desta nova legislação apenas: alínea A) todas as mulheres podem abortar até as 10 semanas. (ponto). Acredito que com a despenalização o aborto vá passar a ser um processo mais controlado.
Vou votar sim, porque quero que elaborem e/ou discutam sobre uma legislação adequada às mulheres que necessitam de recorrer a uma IVG. Vou votar sim porque a actual lei é insuficiente e não prevê as soluções (que diz prever) para as mulheres que, por exemplo, tenham sido violadas. Só o tempo de espera pela decisão do tribunal; provar que foi violada, permissão para a realização do aborto,etc, lá se vão os quatro meses previstos pela actual lei para estes mulheres realizarem um aborto em institutos médicos competentes! Por achar que estas mulheres merecem ter direito a optar, por CONFIAR nas mulheres, e nas melhorias que advirão com uma nova lei, votarei sim.

(repare, a minha questão de fundo não é efectivamente a "vida" do embrião como é a sua; as nossas posições afastam-se muito uma da outra, não é só uma diferença perante a IVG; por aquilo que eu entendi, o senhor não consente qualquer forma de Ivg porque concebe vida ao embrião às 10 semanas, eu consinto mas não compactuo com as tais mulheres "monstro" - que não representam a maioria na minha opinião. Mas "sacrificar" as restantes mulheres à conta destas? não o farei, darei o meu Sim. os casos que conheço de mulheres que recorreram ao aborto na clandestinidade e, a maior parte, em Espanha, contemplam situações que eu considero legítimas (já enumerei quais); o único caso de uma "mulher monstro" que eu conheço (por ouvir falar)- utilizou, junto de parteiras na clandestinidade, o aborto como método contraceptivo. Não acredito que ela o pudesse fazer dentro de uma realidade que prevesse a despenalização do aborto; em primeiro lugar porque esta despenalização iria funcionar, ainda, como forma de combate a estas parteiras e enfermeiras que vivem da clandestinidade e da fragilidade de outras mulheres; e, neste decorrer, em segundo porque se esta mulher tivesse oportunidade de realizar a primeira Ivg num qualquer hospital público, teria o seu processo devidamente "sinalizado" e controlado, e por certo identificariam a tempo o "distúrbio" comportamental da mesma. Agora, pode perguntar: que garantias teria que ela recorresse ao hospital? Certo. Mas que garantias terei eu de que as parteiras continuarão a prosperar num ambiente de despenalização do aborto para as mulheres? Nenhumas, aliás acredito que o "negócio" destas diminua, é nisto que eu acredito.
Votarei à "lei" do que eu conheço e acredito, por convicções pessoais e por aquilo que EU gostaria de ver mudado no meu país, sabendo de antemão que não existem perfeições, apenas melhorias. Serei talvez um Sim moderado, e o senhor um Não "convicto" para qualquer caso.)

cumprimentos R.
 
Cara R.
1. Quanto ao ser "vontade do freguÊs": peço-lhe apenas que leia a pergunta do referendo! Não há qualquer referência a esse "controlo" de que fala!

2. Quanto ao negócio das parteiras, talvez diminua com o Sim (e sublinho, DIMINUA). Mas viria outro para o substituir... o das clínicas de aborto! Não sei se leu uma entrevista que recomendei aqui há tempos http://www.abortionfacts.com/dr_willke/connector_july_98.asp#1
É muito elucidativo sobre a forma como estes estabelecimentos tratam as mulheres

3. Eu também tenho os meus contactos e, embora nunca tenha estado com mulheres que abortaram, tive de certeza experiências com mulheres com comportamentos de risco e que simplesmente gozam quando chamadas ao bom senso (quantos abortos não seriam prevenidos)! Também sei casos de mulheres que maltratam e negligenciam os seus filhos - quer que acredite que essas mulheres vão pensar 2x antes de abortar?

4. Como já disse (e vexa admitiu), os seus argumentos baseiam-se em convicções! Tal é ainda insuficiente para me fazer CONFIAR

5. Lamento que faça tão mau caso de mim: afirma-se como um "Sim moderado" (que eu admito que é) e diz que sou um "Não convicto em cada caso" - parece que não leu grande coisa do que tenho escrito. Não estou propriamente muito preocupado com a penalização das mulheres... caso o Sim ganhe, não é por isso que vou capitular nas lutas sociais em que acredito! O que me preocupa realmente é esta evolução no sentido de uma maior desresponsabilização a nível sexual, e que atinge o seu expoente máximo na desumanização de alguém para promover este modelo! Não é só o embrião que está em causa! O caminho que trilhamos é perigoso a nível biológico, emocional, de saúde pública, demográfico, civilizacional e humano. O Não apresenta-se, para mim, como um "Chega, foi longe demais!" E foi. Quero que o meu voto se reflicta numa mudança do curso actual, para a resolução das verdadeiras questões!
Como vexa. o diz, na sua última frase, luta por um mundo "remediado"! EU luto por um mundo "melhor"! Posso não o alcançar, mas é apenas exigindo a perfeição que se atinjem as melhorias!
Cumprimentos
 
não sei se vai ler...

kephas quando referi que era um não convicto não foi da maneira que está a pensar...foi mais no sentido de que, dado que defende a vida embrionária acima de tudo, não concede qualquer forma de recurso a Ivg por parte das mulheres... penso que tenho lido correctamente o que escreveu; parece-me é que não percebeu a expressão que utilizei em relação a si.
cumprimentos espero que tenha tido um bom Natal

R
 





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