PÉROLAS DO POLITICAMENTE CORRECTO

O próximo referendo sobre o aborto desencadeou o habitual e infeliz desfile de lugares-comuns com que normalmente se procura disfarçar dificuldades políticas conjunturais, mas que são ideias perniciosas que é importante desmontar. Todas elas assentam num profundo temor do confronto de ideias e numa estéril preocupação com consensos pueris, falsos, artificiais e verdadeiramente estranhos à democracia.

Primeira pérola: a de que fica mal ao Presidente da República tomar posição pública sobre o seu sentido de voto no referendo. Eu defendo que Cavaco Silva devia informar os cidadãos sobre se vota sim ou se vota não no referendo. Não vejo em que é que isso diminuiria a função ou o titular. Pelo contrário, a falta de posição é que diminuirá a dimensão política do titular. E não se argumente com a ideia tão portuguesinha que o Presidente da República o é de todos os portugueses, que deve unir e não dividir e que tomar posição é dividi-los. Essa é uma visão meramente paroquial das instituições e da democracia.

O Primeiro-Ministro e os membros do Governo também o são de todos os portugueses e tomam posição e bem, independentemente de não tomarem posição igual à minha. É bom para o esclarecimento eleitoral e para a transparência da actividade política que se saiba o que os políticos, sobretudo os que exercem funções de maior responsabilidade, pensam dos assuntos que dizem respeito à comunidade. Não que devam sair à rua de megafone em punho fazendo campanha à porta do metropolitano ou nas feiras ou mercados.Mas até depois de Maria Cavaco Silva ter dito em entrevista concedida esta semana à Visão, que acha que a Lei está bem como está, menos se entenderia que Cavaco Silva não o fizesse.

Segunda pérola: a de que a pergunta é uma questão de consciência que não deve ser partidarizada. Este foi o argumento politicamente correcto que o PSD utilizou para não tomar posição. Não vejo por que razão os partidos políticos hão-de estar inibidos de tomar posição sobre o assunto. Têm obviamente a liberdade de não o fazer, mas também a de o fazer. Sem que com isso violem a consciência de quem quer que seja.Normalmente quando um partido usa este argumento é porque não quer assumir que existe uma profunda divisão interna sobre a matéria em causa. O que também não tem mal nenhum, mas há partidos assim, que têm medo de se ver ao espelho.

Terceira pérola: a de que os partidos devem dar liberdade de voto. Esta é normalmente consequência da pérola anterior. Lá veio o PSD comunicar com pompa mas muito pouca circunstância que dava liberdade de voto. Esta pérola já não é propriamente politicamente correcta mas apenas politicamente tola. Os partidos não podem dar uma coisa que o eleitor tem sempre, mesmo que os partidos não o dêem.Seria bom que num debate verdadeiramente civilizacional, que tem a ver com o essencial do nosso modo de ver a vida e a sociedade, ninguém utilizasse argumentinhos para se furtar à responsabilidade de uma posição. É que isso tem nome no dicionário e não é dos mais bonitos.

(publicado na edição de hoje do Diário de Aveiro)

Comentários:
Bom, este é sem dúvida um assunto que além de polémico levanta grandes dúvidas religiosas, éticas, morais etc etc etc...
A minha opinião é um pouco ambígua... Por muitos motivos, porque acho que há muitas considerações a tecer, muitos debates que não têm levado a nada e muita coisa implicada numa "lei/decisão" que é tudo menos linear.

Passo a explicitar melhor o meu ponto de vista dado que, até agora ainda não disse absolutamente nada.

Quanto à igreja católica e outras tenho a dizer que acho, e poucos discordarão, que todas estão completamente obsoletas a nível de ideais e não merecem ter voto útil na matéria nem qualquer implicação neste processo de escolha. Que pessoas votem não ou sim pelas suas crenças religiosas aceito, e também sei que não há nada a fazer...

Vou agora dizer tudo o que acho que está do lado do sim:
As mulheres portuguesas de um modo ou de outro têm sido injustiçadas em relação às restantes europeias, têm que se submeter a abortos clandestinos sem as mínimas condições, ou então ir a Espanha se tiverem posses para isso. De qualquer modo estão sempre sujeitas a processos judiciais que de um modo ou de outro, conseguem destruir muita coisa, até porque mandá-las para a cadeia não é propriamente uma boa maneira de dar o exemplo. De ressalvar também que qualquer mulher impedida de fazer um aborto de um modo ou de outro não dará ao seu filho o melhor que pode porque, para começar, não o desejava de todo.

Quanto ao não:
É um facto que hoje em dia há um grande leque de escolhas no que diz respeito aos métodos contraceptivos, há preservativos, pílulas etc e em casos de emergência como sejam violações ou erros nesses métodos contraceptivos há a pílula do dia seguinte.
Há tembém que ver que cada pessoa é responsável pelos seus próprios actos e que ter um filho, sendo uma coisa muito séria é um desses actos. E o facto de não desejar um filho no imediato não quer dizer que não se mude de ideias depois porque afinal ser mãe/pai em teoria é das melhores dádivas que se podem ter...

Quanto à questão das datas, de quando é que um embrião feto ou lá o que seja passa a ser uma pessoa, a ciência não toma uma posição em parte porque não sabe, em parte porque isso não iria ser acatado de ânimo leve por muitas religiões que para aí andam... O que é uma pena porque se isto já fosse consensual, o aborto seria muito provavelmente mais uma lei equiparada à do álcool aquando da conduçaõ: não se recomenda mas se beber um copo não há-de ser nada... É uma analogia um pouco fria é um facto, mas quanto a mim é um pouco nessa onda.

O problema quanto a mim é de teor social, não teria a minima reticência em dizer sim, se soubesse que os valores sociais que permitem fazer essa opção conscientemente e com conhecimento de causa estivessem já sufucientemente desenvolvidos no seio da nossa sociedade.Mas infelizmente acho que não...

O ideal seria que o abrto fosse, antes de tudo, um último recurso, e só se tornasse possível caso as condições o aconselhassem/permitissem. Mas como a definição dessas condições é tudo menos trivial a coisa é bastante complicada...

Por tudo isto e por muito mais, a minha opinião resume-se num talvez... É uma questão de optar por aquilo com que mais nos identificamos e pelos ideais que achamos serem mais válidos...

Espero ter contribuído para o "debate"
 
Aieaaa bem, nem posso acreditar que concordei a 100% com um post de um apoiante do NÃO.

ehehe

Certeiro, caro J.Ferreira.
 





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