O Vento Assobiando nas Gruas

Através de um simples debate foi possível perceber o que mudou e o que não mudou desde o último referendo.

Mudou o NÃO, não mudou o sim.

Mudou o NÃO porque se tornou mais consciente, credibilizando-se através dos testemunhos e das experiências de muitos que arregaçando as mangas, dando a cara, se colocaram inequivocamente ao lado das mulheres e das crianças.

Mudou o NÃO porque tendo promovido, de forma continuada desde o último referendo, um verdadeiro debate de ideias, pluralista e sem preconceitos, solidificou os seus argumentos oferecendo-se hoje mais do que nunca como solução de compromisso entre o interesse da mulher e da criança.

Mudou o NÃO porque se tornou mais tolerante, centrando-se no seu argumentário, abandonando definitivamente a catalogação gratuita da parte contrária, ultrapassando uma concepção quiçá maniqueísta da questão em disputa, honrando, assim, o debate com uma posição mais equilibrada, mais conciliadora.

Mudou o NÃO porque prevalecendo-se apenas da validade dos seus argumentos rejeita toda a sorte de sofismas e falaciosas (im)PUREZAS , vitais apenas para quem teima em olhar o outro com desdém e arrogância, adoptando sempre uma atitude séria e empenhada no esclarecimento dos aspectos jurídicos e científicos, sem escamotear a verdade, sem medievalismos.

Enquanto isso o sim continua ruidoso, pouco esclarecido, lembrando cada vez mais o vento assobiando nas gruas.

Comentários:
O vento assobiando nas gruas é pouco esclarecido? E o que assobia nas betoneiras, é ingénuo? E o que assobia nos andaimes, é imaturo? E o vento assobiando nas metáforas trapalhonas, será esse o vento mais esperto deles todos?
 
De cedência em cedência se chega à decadência:

«O número de abortos legais na Rússia ultrapassa o número de nascimentos, num país com uma das mais liberais legislações sobre a interrupção voluntária da gravidez e que foi o primeiro a legalizar a prática, em 1924.

Estatísticas de 2005 indicam que o número de abortos em instituições mé dicas legais se situou entre os 1,7 e os 1,8 milhões. No mesmo ano registaram-se entre 1,4 e 1,5 milhões novos nascimentos.

Segundo a Lei sobre a Protecção da Saúde dos Cidadãos de 22 de Julho de 1993, praticamente não existem barreiras à realização de abortos na Rússia. O aborto pode realizar-se até às 12 semanas de gravidez a pedido da mãe , podendo esse prazo prolongar-se até às 22 semanas por "razões sociais".»

http://blogs.publico.pt/darussia/
 
Assim é que é debate?

Marta
 
Já agora deixem-me levantar uma questão: porque é que ninguém se lembra de acusar os defensores do Sim de não terem feito nada para apoiar as mulheres que tanto apregoam defender?

Se de um lado estão os "defensores do feto" e do outro os "defensores das mulheres" é estranho que a coerência só imponha aos primeiros o apoio ás mulheres e aos segundos não. (diga-se de passagem que os primeiros aceitaram o desafio enquanto os segundos só os ouvimos nos últimos 8 anos aos berros sempre que existiam julgamentos e mesmo que as as mulheres julgadas tivessem abortado muito depois das 10 ou 12 semanas).

Hão-de convir que se temos que exigir a alguém que apoie as mulheres grávidas esse alguém são aqueles que estão sempre com a boca cheia da "liberdade da mulher para decidir". Ou pode haver liberdade para decidir se não houver alternativa? Como pode uma mulher ter liberdade de escolha se não houver escolha? se a escolha for continuar na miséria com mais um filho para alimentar ou o aborto? Será que existirá liberdade de escolha?

É curioso que de todas as associações que lidam com mulheres que já abortaram não exista nenhuma que se manifeste pelo Sim.

É curioso, não acham?
 
Caro Rui Castanhinha,
Mais do que curioso, É SINTOMÁTICO.
 
Parlons-nous d'avenir. Eu voto não. O sim vai em boa probabilidade ganhar. O que é que vamos fazer?
 
Prezado Miguel

Ora não é que eu acho exactamente o contrário. De facto, se o debate intenso alterou alguma coisa foi, justamente, o posicionamento do SIM, senão vejamos, no outro referendo a substância do debate foi muito marcada pela esquerda festiva. prevalecia a tese da mulher poder dispor do seu próprio corpo, uma espécie de ganho civilizacional, como o fora antes, o direito de voto, passaporte, fumar na rua, etc. Hoje não, esses sentimentos podem permanecer na agenda de alguns, mas não são predominantes, são um pouco como aqueles que no NÃO (embora aqui até ache que são em maior número) continuam a olhar de soslaio para a lei que permite a interrupção nos casos de violação. O SIM de hoje é, sobretudo e essencialmente pela despenalização. E dentro deste processo há a constatação prática de que o aborto clandestino nunca diminuiu ou se atenuou com toda a legislação repressiva. É, portanto, um SIM a caminho de melhores soluções. A protecção do feto (que legitimamente deve merecer a nossa preocupação), daquela vida humana em potencia é garantida, naquelas dez semanas, em primeiro lugar pela sua progenitora. e em segundo lugar, para os momentos e nos aspectos mais difíceis do seu processo de gestação, há ainda a possibilidade da sua protecção ser assegurada com o recurso ao apoio de profissionais de saúde. As alterações que você vislumbra no NÃO parecem-me meramente semanticas, aliás, se reparar, do debate do prós e contras da RTP ficou do lado do NÃO a imagem do que é neste momento a vossa encruzilhada e talvez por isso percam este referendo, a saber: a desumanidade de Fernando Santos, o paternalismo de Katia Guerreiro e a exploração da violência emocional que nos foi dada pelo testemunho de uma criança. Há neste referendo, caro Miguel, estou em crer, um efeito bumerangue relativamente ao de 1998. Trust the people, como dizia churchill

Real
 
vamos continuar a trabalhar, como até agora, em inúmeras associações civis, para fazer aquilo que os políticos deviam fazer no parlamento: arranjar condições para ajudar as mulheres deste país a NÃO abortar.
 
Caro Real:
Está a querer dizer que a melhor maneira de proteger o feto é desistir de um modelo em que a protecção é assegurada pela mãe, pelos apoios dos profissionais de saúde (que podem ser postos em prática SEM liberalização do aborto) E pelo Estado, em detrimento de um modelo em que a protecção é assegurada pela mãe e pelo apoio de profissionais de saúde (com interesses envolvidos em Clínicas de "IVG")?
Cumprimentos
 
O que não mudou foi o assustador número de mulheres que continua a recorrer ao aborto clandestino em Portugal. Parafraseando um programa que decerto conta com atenta audiência de 99% dos partidários do não, "Talvez valha a pena pensar nisso...".
 
Dizer que o aborto clandestino acaba no dia 12 se o sim ganhar não é demagogia, é falso! Quanto mais não seja porque depois das 10 semanas o aborto, salvo nos casos que já se encontram previstos na lei, vai continuar a ser crime.
 





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