PARADOXOS MODERNOS

Nunca vi tão pouco entusiasmo pelas bandas do Sim como vejo agora. Desconfiam das sondagens que esmagadoramente lhes dão a vitória. Rodeiam-se de mil cautelas sobre o que dizem e o que escrevem. Mandam-se calar uns aos outros, com medo de perderem um votinho. Temem os argumentos do Não. Procuram desesperadamente provocar para fazer saltar a tampa aos defensores do Não, para ver se conseguem a vitória de um desaforo, de um desabafo mal medido. E, para cúmulo, receiam que o grande argumento susceptível de provocar a vitória que obviamente não desejam, seja justamente um argumento socialista: o de que é imoral trocar uma operação às cataratas ou a um cancro por um aborto no Servioço Nacional de Saúde. Se a razão é tanta porquê tanto nervosismo nas fileiras do Sim?
(publicado no Tomar Partido)

Comentários:
Vou contar um caso que tenho a certeza o vosso blogue não publicará:
Alguns anos atrás uma garota de 19 anos veio da aldeia natal, de onde a minha esposa também é, pedir a nossa ajuda. Estava grávida de um indivíduo bem mais velho do que ela, casado, que lhe deu dinheiro para ela fazer o desmancho, a direcção de uma conhecida parteira, onde de certeza tudo correria bem.
Por azar correu mal. Mas a referida parteira estava "protegida" por um médico competente, que prontamente acorreu e internou a garota resolvendo-lhe o assunto! O problema é que a parteira lhe exigiu mais dinheiro pelo trabalho do médico e ela não tinha, não podendo recorrer à família, que além de não ter posses é muito ctolica e conservadora, por isso lembrou-se de nós.
Fui eu que a acompanhei ao encontro com a parteira, com quem mantive uma azeda conversa que agora não vem para o caso, mas que me permitiu conhecer o nome do médico que com ela colaborava no negócio, bem rentável ( na altura, há perto de 20 anos, 90 contos!!). Não divulgo o nome pois ele já faleceu.
Agora imaginem o meu espanto, quando, algum tempo depois, vejo um manifesto com 21 nomes de Médicos Católicos (Professores Universitários) contra a prática do aborto, e um dos nomes pomposamente escarrapachados era o desse distinto clínico. O meu pai também assinava esse documento.
Sou crente e não aprovo o aborto como método anti-contraceptivo.
Nem a garota que o fez, agora mãe babada, o desejou e sofre ainda por o ter feito.
Apenas o fez, porque a mesma sociedade que a condena por o ter feito, não a compreenderia nem a apoiaria nem a ela nem à criança, começando pela própria família.
Para acabar com esta hipocrisia, vou votar SIM, para que não mais adolescentes tenham que passar a dor e a vergonha de se verem julgadas e humilhadas por aqueles que só deveriam dar-lhes apoio e carinho.
 
Não está a ver bem a coisa. Confundiu nervosismo com irritação. A irritação de quem tem que aturar argumentação tão imbecil como essa.
 
Caro anônimo:
Não está bem a ver a questão! Primeiro, este referendo não vai decidir se as mulheres vão ou não ser julgadas judicialmente (porque nenhuma mulher até hoje que tivesse abortado com menos de 10 semanas foi acusada do que for) e muito menos vai fazer com que as mulheres deixem de ser "julgadas e humilhadas por aqueles que só deveriam dar-lhes apoio e carinho". Isso é uma questão de mentalidades advém do facto de você e muitos de todos (quase todos?) sermos contra o aborto como método anti-conceptivo.
Por outro lado, pergunto-lhe: em que pensou essa jovem enquanto estava metida com um homem bem mais velho e casado?? As pessoas têm que ser responsáveis, liberalizar o aborto é uma auto-estrada para o facilitismo e desresponsabilização da mulher, do homem e da sociedade.
Por fim, e porque este comentário já vai longo, com o "sim", essa rapariga seria IDENTIFICADA no hospital público a que recorresse (não recorreria ao privado, concerteza, uma vez que não tinha posses - caso mais comum das mulheres "atingidas" por esta discussão) e seria, consequentemente, humilhada e rejeitada pela sua família.
Não é este o caminho para acabar com este flagelo. A solução está na luta contra as gravidezes indesejadas e no melhoramento do apoio a todas as mães solteiras/sistema de adoção!
Não lhe faz isto mais sentido?

JDC

P.S.: Não pense que não sinto compaixão por esse caso dramático. Creio que uma mulher nessa situação deve ser tratada com alguém que precisa urgentemente da nossa ajuda e não de ser tratada como uma criminosa. Mas, como disse, até ás 10 semanas nenhuma mulher foi sequer acusada. Então o que mudaria esta lei?
 
Ao anónomo das 18:13,

Depois daquele post do senhor lá de baixo (João Gonçalves, não é?) ficou claro de uma vez por todas que até se podem fazer abortos, desde que a lei diga que não se pode.

Daí, até um médico que os faz assinar que não se deve despenalizar é apenas um passo (pequenino), nesta hipócrisia que impera nas mentalidades de alguns.

Eu conheço uma pessoa que fez dois abortos (dois!) no espaço de 6 ou 7 meses... E vota Não e diz que abortar é algo que nunca se deve fazer.

Quem não conhece a história dela, acredita. Os poucos que conhecem perguntam-lhe que raio de posição é aquela.

- No meu caso foi completamente diferente e não tem nada a ver... Que disparate, que comparação! Não tem nada a ver!
 
O sim não está nervoso. Porque haveria de estar? Assiste-lhe a razão. Não criminalizar as mulheres que fazem um aborto é justo e humano.
Ninguém no sim teme os argumentos do não. Quando se tem segurança de convições não se tem medo.
 
Uma interrupção da gravidez não é trocada por nenhuma outra. Quando alguém tem cancro, essa pessoa tem SEMPRE prioridade. O vosso argumento não é sério: os médicos estabelecem prioridades e ninguém vai ficar sem uma operação às cataratas porque uma mulher faz um aboro. Como calcula, são intervenções que se realizam em serviços distintos e diferentes. Nem nunca num serviço de obstetrícia se vai deixar de fazer um parto para fazer uma IVG.
Sejam sérios! Se quiserem discutir as listas de espera do serviço nacional de saúde isso não implica discutir a IVG
 
anonymous (6/1/07 18:13),

Acho que está a ver a "coisa" ao contrário.

A despenalização do aborto a pedido apenas vai fazer com que aqueles que deveriam dar apoio e carinho às adolescentes nessa situação deixem de ver justificação para o fazerem (refiro-me ao Estado, naturalmente). Afinal, essas adolescentes poderão sempre resolver o problema num hospital ou clínica particular, à conta do erário público.
Naturalmente, e como acontece com a mulher cujo caso referiu, irão sofrer toda a vida por terem sido empurradas para o aborto, em vez de apoiadas para evitarem uma gravidez indesejada ou para criarem a criança.

Ah, e quem tem dado apoio e carinho às adolescentes e mulheres grávidas têem sido precisamente as organizações que apoiam o "não", algumas delas já referidas neste blog várias vezes.
Os defensores da despenalização do aborto a pedido têem-se limitado a fazer circos mediáticos à porta dos tribunais onde são julgadas mulheres pela prática de aborto ilegal (todas por abortos realizados após as 10 semanas), forçando essas mulheres a sentirem vergonha e humilhação.

O "não" à despenalização do aborto a pedido é motivado precisamente pela dignidade que as mulheres (e os homens) merecem e pela sincera vontade de as ajudar. Facilitar-lhes a prática do aborto, empurrando-as para as mãos dos que querem que elas abortem e não apenas uma vez, não é ajudá-las.
 
Claro que há pessoas incoerentes em todos os sítios. Sinceramente, não percebi um "pormenor": o problema dessas adolescentes é a gravidez ou o julgamento que a família poderá fazer delas? Está a querer dizer que, se a família não as humilhasse, elas prosseguiriam com a gravidez?
 
A campanha segue o mesmo rumo que em 98. Esperemos q o resultado seja o mesmo!
 
a argumentação imbecil é óviamente a do post e não a do comentário das 18 :13h.

assinado
o anónimo das 21:19h
 
"Uma interrupção da gravidez não é trocada por nenhuma outra. Quando alguém tem cancro, essa pessoa tem SEMPRE prioridade"

Respondendo. De facto, dizer que uma cirurgia Às cataratas ou a um cancro será substituida por uma IGV opde parecer infundamentado. Por isso, dou um exemplo prático:

No hospital mais irresponsável (conheço alguns e a margem de tempo é sempre bem maior) as cirurgias dadas como exemplo são planeadas pelo mneos com um mes de antecedencia. A pergunta que coloco é... uma senhora que decide abortar com 10 semanas tem duas semanas para o fazer. Se um mês tem 4 semanas, alguem dessas quatro semanas terá de sair de uma reserva da sala de operações para que alguem faça uma IGV. E isto não é história. As suites operatórias (e é mesmo asssim que lhe chamam) estam reservadas com bastante antecedencia.

Se tivesse reservado uma suite para a sua noite de nupcias e à ultima dissessem que a sua reserva tinha sido alterada e já não pode ir para la?
 
Este debate é sintomático! Os pró-aborto apresentam como Grande Razão a seu favor... o "estarem do lado da razão". Sem outras razões em que sustentar-se, arriscam-se mesmo a "passar ao lado da razão. Por outro lado, qualquer um estranhará que quem se diz do lado da razão e até oposto à "imbecilidade" (e serão os insultos um novo instrumento da Razão?), se esconda debaixo do anonimato. Será isso fruto de "timidez" natural? Falta de convicção, afinal?

Luís Ribeiro
(Guimarães)
 
"em que pensou essa jovem enquanto estava metida com um homem bem mais velho e casado?? As pessoas têm que ser responsáveis, liberalizar o aborto é uma auto-estrada para o facilitismo e desresponsabilização da mulher, do homem e da sociedade.". Eu percebo a tentação para moralizar, mas com os meus poucos anos de vida tenho vindo a tentar cada vez mais combatê-la. 'Cada um sabe de si e Deus sabe de todos'. E , caso o Jorge Ferreira se julgue algum iluminado, é bom que alguém o chame à razão. A sério: quão hipócrita é aquela primeira pergunta colmatada com dois pontitos de interrogação?
 
Cara rita:

Se cada um sabe de si e Deus sabe de todos, para que são as leis? Não existem valores cívicos? A minha pergunta não é hipócrita, muito menos moralista. Provavelmente, se o marido fosse o seu ou o seu pai ou um filho seu não seria tão rápida a alhear-se dos comportamentos irresponsaveis que muitas vezes se têm. O que eu pretendo é precisamente isso: responsabilizar as pessoas para, aí sim, tomarem uma decisão livre!
 
Porque é que só perguntam "onde é que ela tinha a cabeça quando estava com um homem casado??"
Então e só ela é que lá estava? O homem não fez nada, é inocente?
Porque é que só culpam a rapariga?
Isto é que é hipocrisia...
 





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