RESPOSTA A JOSÉ MIGUEL JÚDICE

"A única posição coerente de quem é contra a despenalização da interrupção voluntária da gravidez é assumir, com coragem e dignidade, o pedido de referendo pela repenalização." A sugestão é de José Miguel Júdice, defensor do Sim no referendo do aborto (a palavra maldita que todos os defensores do Sim evitam, sabe-se lá porquê, usar). Que não seja por isso, Ilustre Colega... eu já aqui defendi uma vez que se o Não perder desta vez, os defensores do Não tem a obrigação cívica de continuar a lutar pela realização de novo referendo para resolver o problema, como a esquerda gosta de dizer. Para a esquerda resolver é permitir a abertura de um guichet no SNS e fazer fila para abortar. Para um defensor do Não, resolver, se o Sim ganhar e criar o problema da violação da vida humana, é repenalizar e fechar o guichet. Parece que o mandato de cada referendo é 9 anos, não é assim? É só para ir fazendo contas...
(publicado no Tomar Partido)

Comentários:
Não percebi a expressão "um guichet no SNS e fazer fila para abortar". Se olharem à vossa volta quantas pessoas é que conhecem (quero dizer conhecer a sério e não apenas falar na rua) que iriam para essa fila?
Sou novo a comentar e como tal não quero ser conotado como um radical do "sim" (pela minha pergunta a minha posição no referendo é obvia) apenas gostava, com toda a minha sinceridade conhecer as vossas motivações e razões para terem a vossa posição, sem querer ofender ninguém.
 
Jorge Ferreira escreveu:
"A sugestão é de José Miguel Júdice, defensor do Sim no referendo do aborto (a palavra maldita que todos os defensores do Sim evitam, sabe-se lá porquê, usar)."

Viva,

Um aparte.

De facto a palavra correcta a usar é interrupção voluntária da gravidez, ou IVG. O aborto é o que resulta de uma IVG, i.e. o fecto (ou embrião até às 8 semanas) e restantes matérias orgânicas que são expulsas da mulher. Isto pode verificar junto de qualquer médico.

Daí que seja correcto falar de Referendo à IVG e não Referendo ao Aborto. (Como não faz sentido falar de Referendo à Região mas sim Referendo à Regionalização.)

Sem mais.

Cumprimentos.
 
Todos os dias nos podemos surpreender ao ver pessoas que nos habituámos a considerar como sendo inteligentes a defender uma posição tão obtusa como o direito ao livre aborto.
Quanto a JMJ, poderia começar por perguntar aos "seus" novos amigos [os "tolerantes" das praças deste pobre e mal frequentado país], se alguma vez haverá outro referendo caso ganhe o "sim"; a resposta, pasme-se, só poderá ser "claro que não".
É essa a ideia de democracia que estes ilustres iluminados têm.
 
Pedro das 3:31,

Então e se dissermos antes "liberalização do aborto provocado"? Já lhe faz mais sentido?
É que, como vejo que gosta de palavras, não resisto a dizer que só se "interrompe" uma coisa que pode recomeçar - o que não é o caso.
Cumprimentos,
Inês Fonseca
 
Cara Inês Fonseca:
Como pessoa de Ciência devo dar o braço a torcer pois o Pedro (3:31) tem toda a razão. "Aborto" não é o termo correcto, pois refere-se ao feto abortado e não ao acto. Todavia, tal não implica que IVG seja o termo científico, pois foi criado como eufemismo para suavizar uma prática horrível. A palavra certa é "Abortamento". Para evitar mais confusões, irei continuar a dizer aborto, que toda a gente percebe o que eu quero dizer... no entanto, acho que abortamento até é capaz de ser mais forte e não deixa de ser correcto. Assim se escreve em bom português...
Cumprimentos
 
Caro strang_er:
A expressão "guichet" serviu para ilustrar que a liberalização do aborto resultará, inevitavelmente, em mulheres que irão realizar abortos sem qualquer motivo válido, uma vez que o abortamento passará a ser mais um "serviço" do SNS (decorrente de mais um "direito"). Não quero estar aqui a falar muito, mas posso dizer-lhe, por experiência própria, que não são poucas as mulheres que estão nesta campanha para "serem donas da sua barriga" (uma posição que não consigo aceitar/compreender). De qualquer modo, esta analogia não deixa de ser uma verdade... se há guichets para todas as consultas que se realizam num hospital ou em todas as clínicas, se o abortamento passar a ser um serviço do SNS (ou numa clínica criada para o efeito), com certeza que existirá um guichet...

Quanto às motivações do Não, não posso falar por todos os seus defensores, mas posso falar por mim...

Vexa refere a si mesmo como um "sim" moderado (pelo menos foi o que eu percebi), então dirá que não é a favor do aborto per se (como o dizem a maioria dos sins moderados). Porque, provavelmente, existe uma parte de si que lhe diz que o aborto não está completamente certo. Ora, eu considero que a aplicabilidade de uma medida não decorre somente da sua eficácia (que não está comprovada por motivos que irei citar a posteriori) mas também da sua ética. Por exemplo, uma forma de acabar com a SIDA seria simplesmente alinhar todos os seropositivos do planeta e fuzilá-los. Efectivamente, esta medida teria 100% de eficácia e poupar-se-iam milhões de vidas futuras a este flagelo. Isto é aceitável? Não! Porque não é ético! Não negamos que exista um problema... mas acreditamos que a solução proposta não é ética. Porque retira toda e qualquer protecção ao feto ante a decisão de alguém que, por sua vez, é imputável tanto na relação sexual que o originou como na procura dos serviços que disponibilizem o abortamento. Porque permite a completa remoção dos Direitos Humanos de alguém que nós já consideramos humanos (e posso dizer-lhe, não existe nenhum argumento científico que refute de forma peremptória o estatuto do feto/embrião/zigoto como um ser humano) Como tal, a liberalização é uma solução que não aceitamos para o problema do aborto clandestino.

Por outro lado vem a eficácia. Não está comprovada. Em muitos países a taxa de abortos subiu após a sua liberalização. Noutros, em que "desceu" faz-se a comparação entre estatísticas oficiais pós-liberalização e as estatísticas pré-lberalização que mais não são que estimativas avançadas por serviços de planeamento familiar, que são instituições que não são neutras neste debate. Quanto mais não seja, porque dados oficiais do SNS não apontam uma percentagem tão grande de complicações pós-aborto clandestino como os milhares de que se fala (já para não falar na mortalidade, que é nula). Por outro lado, a liberalização não acaba com o aborto clandestino... dou-lhe o exemplo da Índia (em que o sistema de saúde não é capaz de chegar às pessoas mais pobres e que, muitas vezes, se encontram isoladas no meio do nada, sem se conseguir deslocar). Vai-me dizer que não posso comparar a Índia com Portugal... mas posso. Acredito piamente que o problema está na resolução dos problemas sócio-económicos. De nada serve, como na Índia, liberalizar o aborto se não se melhoram as condições sócio-económicas. Por outros lado, em todos os países em que essa melhoria pôde ser alcançada, houve liberalização do aborto (ou uma aplicação da lei mais liberal). Por isso os adeptos do Sim dizem que a penalização não sé eficaz... em nenhum país em que a penalização poderia ser efectiva nos seus objectivos, ela foi aplicada (por isso, não se conhece a eficácia da penalização ante a liberalização). Remato dizendo-lhe que a maioria dos países ocidentais começaram a penalizar o aborto por finais do século XIX (quando Hackel descobriu a fecundação ao microscópio) e a despenalizar por volta das décadas de 70... durante este período, a mortalidade/morbilidade por abortamentos decresceu como nunca a partir de 70. Porquê?
Melhoria das condições sócio-económicas! Os adeptos do Não põem a tónica da sua luta aqui, tendo criado várias instituições de cariz social desde 1998. Os adeptos do Sim parecem, desde o último referendo, ter rejeitado todos os projectos-lei que visavam a despenalização efectiva das mulheres e insistiram na liberalização a todo o custo... e aqui estamos nós a discutir num novo referendo. Efectivamente, o que está verdadeiramente em causa (e voltamos à questão do guichet) é saber se o aborto é um direito ou não. É por isso que votamos não.

Espero ter sido útil no esclarecimento que pediu. Eu também considero que o debate deve ser no âmbito das ideias e não dos insultos.

Cumprimentos
 
Por todas as razões e mais alguma - para já o facto de eu próprio estar vivo e agradecer muito a vida -, é evidente que a sociedade portuguesa deverá estar contra o aborto. Quem contacta amiúde com o Zé Pagode sabe que assim é.
Mas não posso deixar de fazer um reparo: é curiosa a posição dos que rejeitam o aborto e, ao mesmo tempo, pretendem a sua despenalização porque, se houver um mínimo de coerência, tal não pode coexistir. É um contra-senso.
O aborto é, por definição, um crime e como tal tem de ser julgado, sabendo-se de ante-mão que existem inúmeras razões para o justificar tais como, além das outras, as já constantes na lei actual., cabendo ao tribunal avaliar agravantes e atenuantes para determinar a senteça que poderá ser, eventualmente, o perdão.
Quanto à vida da criança, todos nós sabemos que se inicia no momento da concepção e só muita ignorância ou evidente má-fé pode pôr em dúvida esse facto.
Quanto ao J. M. Júdice, é tão-só um advogado, o que não o qualifica nem obriga a "dar opiniões" insensatas já que está à vista que não tem conhecimento nem entendimento para tanto.
Mas não está sosinho - há muitos com pretenções.
 
" PELO SIM à Dignidade da Pessoa Humana, SIM a uma Vida Digna para todas as Mulheres que por decisão livre, reflectida e informada, optem pela IVG, até às dez semanas de gestação !






Sou Mãe ! porque quis ! e não porque o Estado quis que eu o fosse.



Se hoje fosse violada, talvez não fosse capaz de tomar a decisão de abortar, optando assim pelo Direito à Vida Humana - em formação dentro de mim - que todos os filhos de mães violadas têm, e ninguém lhes pode retirar, sob pena de cometer um crime !

Se hoje soubesse que estava grávida de uma criança com alguma deficiência grave, talvez não fosse capaz de tomar a decisão de abortar, optando assim pelo Direito à Vida Humana - em formação dentro de mim - que todos os deficientes têm, e que ninguém lhes pode retirar, sob pena de cometer um crime !

Nada impede que uma criança saudável e perfeita sofra um acidente à saída da maternidade e se transforme para sempre, num deficiente; ou que o filho de um acto de amor, não se transforme num violador, ou no mais perigoso homicida !

Assim como, nada impede que uma mulher engravide do marido, companheiro ou namorado, através de uma relação sexual forçada com recurso à violência física e ou psicológica - o que dificilmente se consegue levar a julgamento, por falta de provas.



Sendo assim, que Autoridade tem um Estado - de Direito Democrático - para dizer que fetos devem viver, e que fetos podem ter uma vida interrompida???


A nossa Lei já pressupõe duas classes de fetos humanos:

I. os que têm de nascer....

II. os que não têm de nascer...


Mas os fetos humanos são todos Vida Humana em formação, e como tal, deviam ter todos - sem excepção -os mesmos direitos e oportunidades !

Além disso, a Maternidade não se pode confundir com a gravidez ! esta dura meses, e a Maternidade é para sempre ! a decisão de não interromper uma gravidez, deve ser uma opção pela Maternidade ! e nem sempre, a Mulher que engravida está em condições de optar pela Maternidade ! ou porque foi violada; ou porque a sua saúde ou a sua própria vida corre perigo; ou porque não tem condições para que essa Maternidade seja exercida e vivida com um mínimo de Dignidade !

Nos dois primeiros casos, a Mulher pode optar por renunciar à Maternidade, e inviabilizar aquela Vida em formação dentro de si, sem cometer um crime !

No terceiro caso, se optar por renunciar à Maternidade, achando que não tem condições que lhe permitam exercê-la, com um mínimo de Dignidade para ambos,

a Gestante comete um crime, mesmo quando essa decisão, seja tomada até às dez semanas de gestação.


E a questão é:

deverá uma Gestante que sabe não ter condições mínimas para ser Mãe, ser obrigada a levar a gravidez até ao fim, para a abandonar depois à sua própria sorte, seja ela, à dos cuidados(?) dela, sua Mãe biológica sem as condições mínimas para o exercício da Maternidade; ou seja ela, a do abandono da criança em local devidamente autorizado pelo Estado que a obrigou a nascer contra a vontade da sua Mãe biológica ?

deverá uma Gestante que nunca quis ser Mãe, e que engravidou contra todas as precauções, ser obrigada a levar a sua gravidez até ao fim, momento em que legalmente poderá oferecê-la para a adopção, qual dadora de um Ser Humano completo e com vida - mas que os pais biológicos nunca desejaram ter ?


Sabendo como todos sabemos, que todos os métodos contraceptivos falham e que as Pessoas falham, contra a sua mais firme vontade,

deverá a Mulher - e o próprio Homem - continuar a viver a sua Sexualidade, imaginando o dia em que todos os métodos falhem, e com isso, sejam obrigados a ser Pais, mesmo sem o querer ser ou sem ter condições mínimas para tal ?

É esta a Vida, que queremos preservar a todo o custo - e sobretudo, à custa da condenação das nossas Mulheres que engravidam, mas que não querem mesmo, ou não podem mesmo, ser Mães ?

É isto que temos para oferecer aos fetos do sexo feminimo que pretendemos proteger com a nossa actual Lei ?

É este o Mundo em que os fetos do sexo masculino que igualmente pretendemos proteger, vão ter de viver, vendo as suas companheiras, as suas mulheres, as suas namoradas, as filhas, as mães, as amigas, a morrer vítimas de aborto clandestino, ou a ter filhos por medo das penas criminais, ou a deixar de viver a sua Sexualidade em Liberdade - responsável - para não ter de viver sempre com medo - ou mesmo em pânico - sob a ameaça de ter de praticar o crime do aborto, ou de ter de ser Mãe à força tenha ou não um mínimo de condições para o assumir ? intimamente, familiarmente, socialmente ou economicamente ?


Uma Mulher só poderá ter uma Vida digna, se o direito de querer ou não querer ser Mãe, puder prevalecer sobre o direito à vida do feto que se desenvolve dentro de si, e desde que a Mulher o exerça até a um determinado momento - o mais curto possível, mas que ainda lhe permita tomar uma decisão livre, reflectida e informada !

Caso contrário, a Mulher não poderá jamais sentir-se dona da sua própria Vida, nem um Ser Humano Livre de viver a sua Vida em toda a sua plenitude - responsável ! o mesmo se podendo dizer em relação aos Homens !

E a partir do momento, em que uma Mulher seja legalmente obrigada a ter uma Criança que não quer mesmo ter, ou não pode mesmo ter, o Estado deveria assumir toda e qualquer responsabilidade pelo sustento e formação daquela Criança até à sua maioridade - e auto-suficiência - assumindo ainda a responsabilidade por uma forma de compensação à Mãe involuntária, pela gestação e maternidade forçadas; e da mesma forma, ao Pai involuntário pela paternidade forçada;

porque em boa verdade, estes Filhos da Lei, já nascem sem Mãe, e sem Pai, naquilo que mais importa, que é a vontade de assumir esse papel e a capacidade para o exercer e viver, por vontade própria !


E uma Mulher ( assim como um Homem ) que opta pela IVG


ou o faz porque sabe que nunca poderá exercer em relação à Criança em gestação, uma Maternidade/Paternidade com um mínimo de Dignidade para todos - e nenhum deles merece que isso lhes aconteça ;

ou prefere abortar porque Sim, e uma Mulher, ou um Homem, que opta pelo aborto porque Sim, não tem um mínimo de condições psicológicas, nem um mínimo de responsabilidade para assumir uma Maternidade/Paternidade - que não seja um Poder Paternal de alto risco para aquela Vida Humana, que para eles pais biológicos, nunca teve qualquer valor !



É muito fácil o Estado continuar a fingir que protege o Direito à Vida das suas Crianças não desejadas pelos Pais biológicos, durante a sua gestação, através da penalização do aborto nos termos em que a Lei actual é aplicada,

porque até aí, e a partir daí, e fora disso, o Estado se desinteressa totalmente dos destinos de Mãe, Pai, Filho, e respectivo(s) Agregado(s) Familiar(es) e até do seu impacto na Sociedade...


Retirando os casos de abandono e de infanticídio - por acção ou por omissão - o Estado após o nascimento completo e com vida, só voltará a preocupar-se com estes Filhos da Lei, quando passarem a integrar os números crescentes dos Menores em Risco, os da delinquência infantil, do trabalho infantil, do insucesso escolar, do desemprego por falta de qualificação, da violência doméstica, do divórcio, da sida, das vítimas da prostituição infantil ou da pedofilia...

Sendo que, por cada um destes Menores, existe, ou existiu, uma Mãe, a quem o Estado não reconheceu o direito de escolher não ser Mãe, por falta de condições mínimas para o ser verdadeiramente !


e estas condições mínimas, dão-se às Famílias e sobretudo, à Mulher, antes da Mulher engravidar contra a sua vontade! dão-se nas condições de vida de um Povo, na Educação, na Saúde, na Cultura de Vida de uma Nação, que não pode jamais aceitar, que as suas Mulheres tenham destinos de morte macabra, ao tentar escapar de uma Maternidade ainda mais macabra ! que não pode admitir que à margem da sua Lei, alguém se substitua ao Estado na prestação de cuidados mínimos de saúde pública ! ou que se atravessem fronteiras para ter acesso a esses mesmos cuidados ! ou que um negócio de Vida ou de Morte continue na clandestinidade consentida, sem qualquer controlo ético, sanitário, fiscal, e de qualquer natureza ! uma Nação que convive serenamente, com a prática do aborto sem limite de semanas de gestação, a pedido de sabe Deus quem, feito por sabe Deus quem, por quanto sabe Deus quanto, em condições que só Deus sabe... E graças a um simples Não ! tudo poderá continuar a ser o que só Deus sabe ! até quando Deus quiser !

E isto porque, as condições de que uma Mulher precisa para ser Mãe, e antes disso, para querer ser Mãe, não se dão depois de a Mulher engravidar contra a sua vontade, obrigando-a a assumir uma Maternidade não desejada,

nem se dão, coagindo uma Gestante com a ameaça de penas, que por decreto conduzem ao nascimento de Crianças que não contam, logo à partida, com a sua aceitação por parte da Mãe; um facto que pode, desde logo, colocar em risco o seu Direito à Vida, ou o seu Direito a uma Vida DIGNA, a partir do primeiro minuto de vida, e em cada minuto restante da sua Vida... A mesma Vida que o Estado lhes quis garantir desde o momento da concepção, sem nada mais lhes poder garantir !


Muito pelo contrário, num País em que,

as Mulheres pudessem contar com o apoio do Estado no processo de tomada da decisão de abortar ou não abortar, o Estado teria todas as oportunidades para as convencer a não o fazer;

mas na clandestinidade - mantida pela Lei actual - o Estado não está lá para tentar evitar, o que tanto quer evitar !

E como a decisão é punível, o Estado não pode ter Serviços de Apoio à formação dessa decisão, perdendo assim, a melhor de todas as oportunidades para tentar proteger a vida da mulher e do feto ! e quando, não seja de todo possível proteger a do feto, pelo menos, proteger a vida da mulher que prefere morrer vítima de aborto clandestino e cometer um crime, a deixar crescer dentro de si, uma Vida pela qual não se pode ou não se quer responsabilizar !

E, enquanto morrem na clandestinidade, tentando evitar gerar Vidas pelas quais ninguém se responsabiliza à nascença,

mata-se, ao abrigo da Lei, em legítima defesa, aborta-se o fruto humano de uma violação, aborta-se o fruto humano que ameaça a saúde ou a vida da gestante, aborta-se o fruto humano defeituoso, porque a vida humana não é, e nunca será um bem absoluto.

Finalmente, num País, em que uma Mulher pode ser obrigada a ser Mãe à força - coagida pela Lei Penal - não se pode dizer que a Mulher é dona do seu Corpo e da sua Vida ! porque antes disso, existe uma Lei que atribui a um feto, o direito de exigir que essa Mulher seja sua Mãe, mesmo contra a sua vontade, mesmo sem ela poder assumir essa Maternidade com um mínimo de Dignidade para ambos ! mesmo quando essa Mulher engravidou nas circunstâncias mais adversas da vida, mesmo quando essa gravidez só lhes possa trazer - a ambos - destinos de miséria (des)humana ! que de resto, se podem estender a outras Vidas irreversivelmente afectadas por aquele nascimento indesejado !

Um Estado que só se interessa pela Vida Gestante e em Gestação, para depois A deixar duplamente, entregue à sua própria sorte, não tem Autoridade para punir quem, sem o seu apoio à formação de uma decisão livre e informada, decide pôr termo a um futuro que não deseja para si, nem para aquele Ser Humano em formação, nem para o pai biológico, e respectivos agregados familiares, sendo caso disso.


Para terminar, eu acredito que nasci, não porque fui concebida, mas porque os meus pais quiseram que eu nascesse;

se tivessem decidido não me deixar nascer, estivesse eu hoje, onde estivesse, saberia respeitar a sua decisão e não os censuraria;


porque na barriga da minha mãe, a minha vida não valia mais do que a vida de um feto mal formado, ou do que a vida de um feto de mãe violada - a minha vida valia o mesmo !


Do mesmo modo que hoje, a minha vida não vale mais do que a vida dos deficientes e dos filhos de mulheres violadas que nasceram, e que são Pessoas como eu - como todos nós - com os mesmos Direitos.

A decisão deve, em meu entender, pertencer aos pais, e em último termo à mãe, e nunca a um Estado que penaliza, mas não protege, nem apoia, nem antes, nem durante, nem depois...

Mãe & Advogada "
 





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