Bater a Palla à Democracia

Volto à questão da entrevista da nossa galardoada Sofia Branco para comentar o socialismo segundo Maria Antónia Palla (dois Ls será do NÃO?), jornalista e pelos vistos profundamente democrata…

A jornalista entrevistada, segundo a sua galardoada entrevistadora, está convencida que “ser partidária do NÃO e militante do Partido Socialista não faz absolutamente nenhum sentido”, advogando que este partido perfilha “uma falsa ideia de tolerância e democracia”…

Em primeiro lugar é óbvio que tolerância e democracia não têm rigorosamente nada a ver, nem sei para que vale a pena dizer estas coisas… por isso é democraticamente que a senhora jornalista ( a entrevistada, entenda-se) não tolera socialistas que votam NÃO… fazem-lhe urticária… Ainda bem!

Mas a nossa querida titular da consciência socialista, que segundo parece fez o milagre de estar inscrita no Partido Socialista sem ser militante (às vezes não é mesmo nada fácil interpretar estas peças jornalísticas de elevada craveira intelectual), gosta de recorrer à contradição como figura de estilo e por isso afirma na mesma frase que “"Não se sabe muito bem, hoje, o que é o socialismo, mas há três valores que lhe são essenciais: a liberdade, a igualdade e a solidariedade." (esta senhora é mesmo desconcertante… não milita mas está inscrita, não sabe o que é mas conhece o socialismo…).

Mas nesse caso fico mais descansado (a senhora jornalista, coerente com o princípio da democracia intolerante ou vice versa que também dá diz que "quem não reconhece estes valores, não pode, nem deveria, pertencer ao partido")…

É que voto NÃO precisamente porque acredito na essencialidade da liberdade da mulher (no momento em que se autodetermina sexualmente e por isso sou a favor da actual lei quando exclui a ilicitude do aborto no caso de violação), porque estou convicto da igualdade entre seres humanos, independentemente de viverem em ambiente intra ou extra-uterino, e porque prezo a solidariedade quer para com as mulheres quer para com os bebés enquanto seres participantes de uma dignidade inerente à sua condição de seres humanos…

Mas, Maria Antónia, para quê tanta coerência em lugar de solidariedade (olhe lá a regra dos três pilares)… Então reconhecer e logo num jornal de grande tiragem que “a despenalização do aborto é a conquista da «última liberdade» das mulheres, que devem ter o direito de decidir «quando, quantos e se querem ter um filho» é coisa que se faça ao sim?

Admitir numa altura destas que quem vota sim autoriza a contracepção abortiva ilimitada não é coisa de quem vota sim, Maria Antónia, não é coisa que se faça aos seus companheiros de jornada... Só por isso ainda gosto mais de si…(quanto à expulsão do partido isso arranja-se).

E não se preocupe, porque mesmo que a seguir se escude no non-sense constitucional de proclamar o fundamental «direito da criança a ser desejada» e no dever de o Governo actuar livremente na esfera de competências reservadas da Assembleia da República eu continuarei a gostar muito de si por ter admitido que o aborto servirá de método contraceptivo caso o sim ganhe o referendo (desde que, claro está, me deixe voltar a fazer parte do Partido Socialista).

Comentários:
A 'boa' lei
"A história passa-se no final de 2005. Uma adolescente de 14 anos entra no Hospital de Santa Maria com uma overdose de misoprostol, vulgo Citotec, o medicamento para o estômago liberalizado nos últimos cinco ou seis anos como método abortivo auto-induzido que resulta em inúmeras sobredosagens diagnosticadas nas urgências. Ana - chamemos-lhe Ana, é curto e serve - tomou 64 comprimidos. Remetida de um hospital de periferia, chega "já em choque" a Santa Maria, com "alterações vasculares importantes ao nível do tubo digestivo". Em bom português, a Ana está toda rebentada por dentro. A operação não a salva.

Ana estava de 20 semanas. Mais dez que aquelas que a pergunta do referendo prevê e mais oito que as 12 previstas na lei em vigor para casos de "risco para saúde física ou psíquica da grávida". Talvez, se Ana tivesse tido a ideia e a coragem de, com ou sem os pais, ir a um hospital às dez semanas de gravidez, um médico compassivo lhe tivesse resolvido "o problema", considerando que a gravidez numa menina de 14 anos pode constituir um grave risco para a saúde. Nunca saberemos. O que se sabe é que a lei não abre excepções para meninas de 14 anos - mesmo se, aos 14 anos, nem sequer se é imputável criminalmente. O que se sabe é que a lei diz que toda a gravidez "normal" que não seja entendida como fruto de crime de violação deve ser levada a termo, com carácter de obrigatoriedade e sob ameaça de três anos de prisão. E que mesmo nos casos como o da Ana, cujo acto, pela idade da autora, estaria automaticamente despenalizado, a pena pode ser a morte.

A morte por aborto, em 2005, por ausência de acesso a uma interrupção de gravidez médica e segura. É esta a lei "boa" que Marcelo Rebelo de Sousa descobriu agora. Esta ou aquela que o professor, na sua dominical cátedra mediática, imaginou em forma de "despenalização geral", sem limite no tempo de gestação, desde que "não seja a mulher a decidir". Quem decidiria, não se sabe, o professor não disse. Nem o que aconteceu à argumentação do sagrado valor da "vida intra-uterina", o tal valor que justifica a qualificação de "crime". Nem, tão-pouco, o que aconteceria às mulheres que decidissem interromper a gravidez sem caução "superior". Mas adivinha-se. Aconteceria o que acontece agora, exactamente: vergonha, clandestinidade, sofrimento, saúde arruinada e às vezes morte. É a pena que o professor Marcelo, que não quer "ver mulheres julgadas", lhes decreta. A pena de morte, sem julgamento."

Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 26/01/2007
 
... mau mau, então não se tinha já concluindo que a F.C., tal como as crianças, também tem direito a ser desejada? ou tem só direito à lágrima fácil? ou, já agora, a uma operação plástica?
 
Já disse e escrevi, não sei onde, que me parece que esta Fernanda Câncio luta incansavelmente (tavez daí o "câncio") pelo aborto para garantir que se possa libertar dos filhos que porventura tenha.
De facto, compreende-se que, se os tivesse, teria receio que fossem parecidos com ela - pelo menos, fisicamente...
 
“ser partidária do NÃO e militante do Partido Socialista não faz absolutamente nenhum sentido”

Então porque é que não percebe que "ser partidário do sim e cristão e católico não faz absolutamente nenhum sentido".

Claro atendidas as diferenças, que ser do Partido Socialista, não é propriamente uma religião, ou é?
Não é preciso ter fé, ou é?
 
para aquilo que este governo faz, aquilo que o partido socialista diz que quer fazer e que vai fazer, e esperar que isso aconteça e que seja bom .... é preciso muita
 
Descobri a carapuça da Palla...

À Palla do Governo
 





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