Coração de Basilisco (ou mais uma para o Câncioneiro)


Publico com a devida vénia um texto soberbo de André Folque, que me chegou às mãos.
A intervenção de Fernanda Câncio no Diário de Notícias de 15.12.2006, é reveladora da profundidade e solidez dos argumentos esgrimidos pelos defensores do Sim. Muito pouca, ainda que haja sinceridade da sua parte. Ser sincero porém não concede aval a exercícios de boçalidade. A autora verbera o cartaz afixado em algumas ruas por partidários do Não, já que alude a um coração que bate com vida no embrião. Em seu entender, há vida, mas não humana. Vida como a vida dos outros animais – não humanos - cujo coração bate igualmente. A falácia dói quando atinge o fundo do abismo. Já não é só a vertigem da queda. É o som de pancada seca no momento do embate, depois de cumprida a lei da gravidade. Talvez mesmo os animais mais selvagens ao ouvirem Fernanda Câncio – com pena deles por não a poderem ler – tenham boas razões para aplaudirem esta pública demonstração de fraternidade zoológica. Quando se julgava extirpado das mentalidades o imaginário medieval das bestas surgidas do ventre humano, por acção do maligno ou de um outro qualquer ser errante, eis que a autora recupera a dignidade dos lobisomens, dos centauros, das sereias e figuras afins. O embrião tem vida, admite. Mas não vida humana. Logo, a mulher pode gerar vida que não é humana. Vida que pode, assim, livremente fenecer às mãos de qualquer matador ou morrer de morte macaca, como diz suceder com 30% dos embriões. Desconheço a taxa de mortalidade das andorinhas, dos rinocerontes e das enguias, mas curvo-me perante a subtileza do raciocínio dedutivo da autora. O conceptualismo escolástico, mesmo no fulgor do seu declínio, no século XVIII, não seria tão ousado. Fernanda Câncio está para o aborto como o basilisco para o bestiário medieval. Usando palavras dos nossos dias, são ambos figuras incontornáveis. Um nasceu de um galo velho, em noite escura, de ovo redondo chocado em estrume por um sapo. Terrível criatura, cujo olhar é mortífero, tirou o sono a muitas criancinhas e propagou o uso da bola de cristal, única arma capaz de fazer reflectir contra o basilisco o seu próprio olhar. A outra nasceu de vida (des)umana. A natureza e as leis proibicionistas do aborto permitiram-na aceder à condição humana. Ela que era bicho, no princípio, hoje locomove-se como os seres humanos, conhece o alfabeto e utiliza o correio electrónico. Ela que conheceu nas entranhas de sua mãe a modesta condição das iguanas, dos periquitos e dos leões marinhos, sabe, melhor que ninguém, como o coração que batia até às dez semanas não era o seu. Era o coração de um basilisco.

Comentários:
Portugueses livres para irem abortar a Espanha? Ou portugueses livres para serem hipócritas?

Dizer não ao aborto é querer impor aos outros as suas concepções de moralidade, as suas formatações religiosas, o desprezo que sente pela vida.

Dizem não ao aborto, porque desprezam a vida, desprezam a condição essencial para o nascimento de uma criança, o amor e o desejo dos seus pais para que ela nasça.

Dizem não ao aborto, porque fecham os olhos aos problemas sociais, porque são hipócritas e não vem que as classes mais favorecidas vão a Espanha, e as menos favorecidas fazem aborto clandestino, pondo em risco a sua vida.

Dizem não ao aborto porque são hipócritas, e querem negar a liberdade de escolha a quem de direito. Não respeitam a vida em sociedade porque não se interessam com as condições que essa criança irá ter em vida.

Apenas lhe interessa fazer perpertuar concepções dogmáticas impostas pela religião.

Ignoram que em nenhum país onde o aborto foi liberalizado houve um aumento real do número de abortos. Querem apenas seguir o caminho da hipocrisia e fechar os olhos, em vez de resolver os problemas.
 
mauzinho, mauzinho, mauzinho.
Mas que está muito engraçado, isso está...
 
Respondendo ao t.brazao. Já estou um pouco cansado deste argumento, mas aqui vai outra vez:
- "pondo em risco a sua vida". Consegue-me identificar algum caso específico real de morte por aborto clandestino? É que estou sempre a ouvir falar nessas mortes constantes e nunca consigo que me identifiquem nenhuma (no relatório da direcção geral de saúde de 2004 - ainda não consegui ver o de 2005 - é garantido que não houve nenhuma...)
- "em nenhum país onde o aborto foi liberalizado houve um aumento do número de abortos". Para não cansar com muitas estatísticas vamos só pegar no caso de Espanha: consegue seriamente dizer-me que não houve um aumento do número de abortos em Espanha?!?
 
E já agora responda-me por favor também a uma outra questão que ainda nunca consegui perceber: se uma criança já nascida não for amada pelos seus pais (pelos vistos condição essencial para a vida), que até lhe batem constantemente, qual a solução que protagoniza: acabar com a vida da criança para não ter que sofrer? Ou julgar os pais?
 
Caro t.brazao,

Hipocrisia é pensar numa anarquia. Não se concorda com as leis...elimina-se

Que pensa da liberalização das drogas?O consumo e tráfico é um flagelo nacional que afecta qualquer família.

Formatações religiosas?Este problema atravessa todos os quadrantes da sociedade, quer políticos quer religiosos (um argumento inválido).

Quem despreza a vida são os defensores do SIM pois querem acabar com ela às 10 semanas.

Falou dos problemas sociais.Acha que liberalizando esses problemas serão resolvidos?Ou a questão é mesmo fazer um aborto "a pedido" à custa dos nossos impostos (que tanta gente se queixa) passando a frente de cirurgias que têm filas de espera de longos anos.

Em relação ao número de abortos nos países em que foi liberalizado, sugiro leia os estudos feitos em Espanha e nos EUA, pois os números subiram exponencialmente. Acrescento que o aborto clandestino continuou a existir.

Desejos de um feliz natal.
 
Esse T.Brazão é um cómico.
"em nenhum país onde o aborto foi liberalizado houve um aumento real do número de abortos. "? Deve andar distraído.
Em todos os países em que o aborto foi liberalizado (escolheu a palavra certa, pelo menos) o que se deu foi um aumento real do número de abortos. Em todos os países. Não há nenhum em que o número de abortos realizados aquando da sua liberalização tenha sido maior do que os praticados actualmente. Nenhum.
Quanto ao resto, pode insultar-nos à vontade, explanar o seu ressaibo o mais que conseguir, bem como à sua (pouco original) transposição da luta de classes para o ventre materno. Já dei para esse peditório.
Para sua informação, a condição essencial para o nascimento de uma criança é a fecundação de um óvulo. Tem mesmo a certeza que os seus pais estavam desertinhos para o ter naquela altura específica?
Olhe, já agora, veja uma ecografia e depois venha cá falar-nos de religião.

Adenda: Espreitei o blogue do T.Brazão e dei de caras com os velhos Karlitos Marx e Cheche Guevara (esses grandes humanitários). Está tudo explicado.
O nosso T.Brazão, para além de humorista, é comunista. Um materialista dialéctico convicto. Daqueles que acreditam que aquilo é científico e tudo. Como o Lysenko. Bem me parecia que estava a reconhecer o som de algum lado. Era a cassete... rumo à ditadura do proletariado.
JV
 
Deixemos tudo os partidarismos de lado... mas T.Brazão, o sofrimento faz parte da condição humana, não há garantias de que sejamos felizes, assim o argumento da maternidade consciente ou da falta de condições materiais não pode justificar o aborto.
 
Caro Brazão:

Quem vem aqui ao blogue sabe que tento responder com todo o respeito aos argumentos contrários. Mas neste caso, levado pela sua animosidade e os seus argumentos dogmáticos - além de infiéis aos factos, como já lhe disseram noutro comentário - e sentindo-me à vontade por o texto não ser meu, deixe-me mandar-lhe uma pequena farpa: os seus argumentos são como o basilisco - mitológicos.
 
Convém esclarecer que, neste caso, a questão político-partidária tem particular relevância. A União Soviética foi o primeiro país a liberalizar o aborto. E hoje em dia, na Rússia, como reflexo dessa lei materialista e permissiva do tempo comunista, há 10 nascimentos para cada 13 abortos.
Em 1970 realizaram-se 4,8 milhões de abortos para apenas 1,9 milhões de nascimentos.

JV
 
Eu cá sou contra o aborto, seja ele quem for!

José Abrantes
 
este blogue é defini








"a condição essencial para o nascimento de uma criança é a fecundação de um óvulo. "


De certeza?
 
Tenho a impressão que esta obsessão compulsiva pela Fernanda Cãncio indicia alguma perturbaçãozita..
Pouco a pouco este deixou de ser o blogue do não, é o blogue nª2 da referida jornalista.. .
Não deixa de ser interessante de analisar...
 
Caro T. Brazão:
"Dizer não ao aborto é querer impor aos outros as suas concepções de moralidade, as suas formatações religiosas" - variante muito bem escrita do velho argumento "eu não vos obrigo a abortar e vocês obrigam-me a não abortar", que põe completamente de lado a questão da ética da prática do aborto.

"Dizem não ao aborto, porque desprezam a vida" - isto faz-lhe sentido? A mim não... explique-se melhor sff.

"Dizem não ao aborto (...) desprezam a condição essencial para o nascimento de uma criança, o amor e o desejo dos seus pais para que ela nasça." - há por aí muitos pais que não amam os seus filhos e veja-se... nasceram! Será que vexa. é a favor dos casos das "Vanessas" deste país? Tais crianças já nascidas também serão desprovidas de direitos, uma vez que lhes falta a "condição essencial" para serem humanas? Uma criança não amada não é humana? Não necessita de protecção contra seus pais? Ou será que o que os pais dessa criança lhe fazem deve ficar na "intimidade do casal"?

"Dizem não ao aborto, porque fecham os olhos aos problemas sociais..." - e as entidades criadas pelo Não com preocupações sociais, como a Ajuda de Berço e a Vida Norte, p.ex? E tudo o que nós dissemos noutros posts sobre não estarem implementadas as medidas necessárias para a prevenção do aborto, e sermos a favor da urgente aplicação das mesmas?

"Dizem não ao aborto (...)querem negar a liberdade de escolha a quem de direito" - e diga-nos vexa, sobre quê (ou quem) mais temos "direito"? Sobre a liberdade do Outro? Porque sempre ouvi dizer que eram aí que acabavam os nossos direitos!

"Ignoram que em nenhum país onde o aborto foi liberalizado houve um aumento real do número de abortos." - mentira! Nos anos que sucedem a liberalização do aborto há SEMPRE um aumento! E mesmo que o que diz fosse verdade (como tantos do Sim argumentam), as liberalizações ainda não foram feitas a uma distÂncia temporal suficiente para se avaliar o seu impacto civilizacional! Será que as gerações futuras, com o aborto tão facilitado e com a educação e os pais a ensiná-las que esta é uma técnica disponível abortarão menos? Parece-me que não, sempre que ouço alguém do seu quadrante político discursar sobre as maravilhas da "dissociação da sexualidade da vertente reprodutiva e emocional", criando uma mentalidade sexual totalmente irresponsável do ponto de vista humano e de saúde pública.

"Querem apenas seguir o caminho da hipocrisia e fechar os olhos, em vez de resolver os problemas." - e vexas, para quem o aborto parece uma solução mágica para todos os problemas sociais? Será que a liberalização do aborto vai resolver a pobreza, a violência, a falta de educação sexual que são as verdadeiras causas do aborto dito "social"?

Para mim, apenas interessa a vexa perpetuar concepções dogmáticas sobre a Liberdade Individual, impondo-as inclusivé à sua descendência, rejeitando-lhes a existência para pôr em prática os seus ideais "altruístas"!

Ah, e já agora... estamos num fórum de discussão de ideias! Não atribuo muita Razão num comment com a palavra "hipócrita" por cada frase! Mas isto sou só eu, enfim... um pobre hipócrita...

Cumprimentos
 
O texto do A. Folque está simplesmente brilhante. Peca apenas por ser "curto" na descrição da "personagem" Câncio.
Enfim, quando a fama sobe à cabeça, o resultado é sempre nefasto e a Câncio é a nossa prova de trazer por casa. Infelizmente e logo num assunto tão importante e relevante como este.
Deixá-la falar que a sua verborreia até pode dar algum jeito.
 
Foi bom que Joge Lima postasse o texto de André Folque.
E pela discussão que se seguiu percebe-se "quem é quem" mas, sobretudo "quem não quer ser quem".
O ser "anónimo" não afecta a discussão.
 





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