KATIA GUERREIRO (2)

Deixo aqui mais um excelente contributo da nossa colaboradora especial Katia Guerreiro, de dia 26/12:
"Desde que me foi lançado o repto de participar neste blogue, que não paro de me questionar quais serão as verdadeiras razões que farão os defensores do sim a manifestar a sua fúria.

Que tenho feito eu? Abordo todos os que encontro a defender o sim (90% são mulheres com filhos) sobre o assunto e concluo sempre o mesmo: há uma grande confusão nas suas cabeças, e uma fraca capacidade de argumentação. E porquê?

1º- Pergunto-lhes porquê o voto no sim.
Resposta: Porque há mulheres que não têm capacidade económica para criar filhos.

2º- Pergunto-lhes se elas tomaram essa decisão quando engravidaram.
Resposta: Não, porque planearam e decidiram depois que não queriam/ podiam ter mais filhos.
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3º- Pergunto-lhes se não é mais justo ensinar e proporcionar aos casais planeamento familiar tal como elas o fizeram, e se têm conhecimento de que nos Centros de Saúde há contraceptivos orais que são distribuídos gratuitamente
Resposta: Sim.

4º- Então porque não o raciocínio ao contrário: em vez de recorrerem ao aborto, porque não antes recorrerem ao C. Saúde para prevenir uma gravidez? Talvez dê muito trabalho lá ir. Será talvez mais fácil, se houver “azar” ir abortar, aliás porque até vai passar a ser “à borla” e “seguro”…
Resposta: Pois…

5º- Pergunto ainda se sabem qual é a lei que está em vigor a este respeito.
Resposta: Não

Esclareço…
Resposta: Sendo assim. Então porque é que os que defendem o sim não falam disto?
Respondo: Pois…

Caros amigos, esta não é uma rábula criada por mim. É uma história que se repete, vezes sem conta, e que me preocupa muitíssimo. Os portugueses não estão minimamente esclarecidos.

Estará o País pronto para responder a este referendo?

Li o testemunho da Maria, que me chocou profundamente, e a mensagem que lhe dirijo neste momento é de total solidariedade para com os seus sentimentos de revolta. Não desista de ser feliz e de recuperar a vontade de ser Mãe, essa é que é uma opção unicamente sua e do seu companheiro, e um projecto de vida maravilhoso. Sobre esse filho nunca mais poderá saber o que teria trazido para a sua vida, mas outro filho pode trazer-lhe de novo o sorriso, mesmo com a saudade do que nunca chegou a ver.

Um forte abraço para si.

Caros leitores deste blogue, o mais importante é ajudar a esclarecer. Não creio que as mentes esclarecidas hesitem em dar-vos razão."

Comentários:
Relembro que actualmente o aborto é proibido em Portugal e se as coisas funcionassem não havia abortos ilegais (porque era tudo resolvido pelas associações de apoio às Mães), nem putos nos orfanatos (porque eram todos adoptados).

Parece que as pessoas que defendem o Não se esquecem que agora é o Não que "manda" e o estado das coisas é o que se vê.

Os do Não não são, propriamente, "um partido que nunca esteve no poder" para virem falar de coisas tão bonitas como se as conseguissem por em prática só que ainda nunca ninguém os deixou...

Agora vivemos sob a alçada do Não, porque é que falam como se fosse depois deste referendo que vocês vão entrar em acção? Porque é que não respondem pelo que andaram e não andaram a fazer e se deixam de falar nas coisas como se não tivessem nada a ver com elas?
 
caros senhores,

sou uma dessas mentes menos esclarecidas que pretende votar sim no referendo.Pretendo com este post apenas demonstrar que não é preciso ser menos esclarecido para votar sim, vejamos: (sou mulher mas não tenho filhos)
1ºpq o voto no sim? porque acho que o direito de abortar e de não levar até ao fim uma gravidez que não é desejada é um direito básico de qualquer pessoa.
2ºnunca engravidei, se engravidasse provavelmente não abortaria, mas defendo que a liberdade de escolha não me devia ser negada.
3ºo planeamento familiar não é a resposta para todos os problemas, não há planeamento 100% eficaz e sim, sei que nos centros de saude se distribuem contraceptivos orais gratuitamente, mas também sei que na maioria das vezes as caixas que chegam aos centros não são suficientes para metade das utentes.
4º como já disse a contracepção não é 100% eficaz - não me parece que uma mulher quye decida abortar o faça porque ir ao centro de saude dá muito trabalho, até porque, parece-me, que submeter-se a um aborto dará muito mais trabalho, mas enfim, são opiniões.
5º sei perfeitamente qual é a lei que está em vigor neste momento, a lei prevê o aborto como tipo de ilicito punido criminalmente, mas estabele 3 casos de exclusão da ilicitude: violação, risco de vida para a mãe e grave deformação do feto.
6ºpelo mesmo motivo que os defensores do não se esquecem de dizer que a adopção resulta na maioria das vezes em crianças abandonadas em lares até à maioridade ou em bebés abandonados em caixotes do lixo.como muito bem salientou o anonimo do comment anterior o aborto é proibido em portugal e não me parece que resolva qualquer problema.

pode agora elucidar-me acerca das conclusões que retirou das respostas ás questões colocadas?é que muito sinceramente não percebi a lógica deste post, era ter um post da Srª Kátia Guerreiro no blog? ou serei eu como muitos outros (que obviamente a srª Kátia guerreiro optou por ignorar)uma dessas mentes que vai votar SIM no referendo e sabe porque, não se limitando a ouvir os argumentos do não e aceitando-os como verdades absolutas?

Ana Guerra
 
"Abordo todos os que encontro a defender o sim (90% são mulheres com filhos)"


Interessante dado.
Deveria merecer a reflexão de todos os que querrem manter a sanção penal actual.

Porque será que as mulheres favoráveis á prisão normalmente não têm filhos ou já ultrapassaram há muito a idade de procriar?
 
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Caro anónimo 27/12/2006 15:42:
Fala do Não como se fosse um partido político que, tendo ganho o referendo, teve o poder para levar a cabo todas as medidas supra-citadas! Um referendo não são eleições legislativas com direito a maioria absoluta! Todavia, o Não implementou muitas medidas positivas e já entrou em acção, ao contrário do que Vexa. afirmam: sugiro que visite o site http://paginasvida.no.sapo.pt/apoioavida.htm! Não são suficientes nem eficazes? Por isso é que falamos das coisas como se "não tivêssemos nada a ver com elas"... porque os adeptos do Sim preferem marcar referendos sucessivos e apostar que o aborto vai resolver tudo a juntar-se a tais iniciativas ou a pressionar o verdadeiro Poder Político a resolver as verdadeiras questões subjacentes!

Cara Ana Guerra:
"pq o voto no sim? porque acho que o direito de abortar e de não levar até ao fim uma gravidez que não é desejada é um direito básico de qualquer pessoa." - e aqui está o verdadeiro busílis da questão... NÃO É UM DIREITO!!! O ÚNICO motivo para um embrião não ser considerado um ser humano no actual estado de conhecimentos prende-se com o facto de os pró-aborcionistas terem convencionado que tal iria contra os seus direitos e, ao mesmo tempo, que matar uma pessoa não é aceitável! Mas o aborto não é um contraceptivo... e o facto de termos chegado até este ponto do debate leva-me a pensar aonde iremos chegar com esta mentalidade! O embrião é já um ser humano e foi gerado por um acto em que os pais participaram conscientemente (e que, logo, são imputáveis)... como tal, vexa NÃO só não tem direito à liberdade de escolha, como tem a responsabilidade de cuidar daquele ser (que é o seu filho, afinal de contas). A liberdade de escolha foi feita previamente, pois é inaceitável que se continue a discutir esta temática como se não tivéssemos qualquer controlo sobre a nossa sexualidade! Não há planeamento familiar 100% eficaz? Há sim! E atiro à mesa uma medida que está intensamente carregada de preconceito, mas que para mim não é assim tão pecaminosa: abstinência! Mas a abstinência não é sempre possível pois não? Certo! Então reduza-se a frequência... e associem-se 2 contraceptivos (a pílula e o preservativo têm eficácia de aproximadamente 99%, imagine-os combinados). Considera que este planeamente familiar não é 100% eficaz? Anda bem perto disso... e as excepções daí resultantes não justificam qualquer alteração da lei! Por esta altura da leitura (sobretudo na parte da abstinência e da redução da frequência), vexa. já se terá desatado a rir, com certeza! Contudo, reflicta no que eu disse de uma forma objectiva! Isto é que é responsabilidade... a tónica não deve ser posta em "decidir sobre o aborto" e "em que condições"; a tónica deve ser posta em "decidir sobre a prática sexual" e "como a praticar"! Por vezes temos de sacrificar os nossos direitos e liberdades em nome dos outros e a vida em sociedade é precisamente isso!
É que não basta somente a liberdade de escolha... é preciso também a ética! E quando vejo mulheres como vexa, que me parece uma pessoa instruída, a falar em direito de escolha sobre outro ser humano, perco completamente a confiança no livre arbítrio! Para explicar como a ética é importante, pego no exemplo que vexa dá sobre crianças institucionalizadas... Uma boa forma de acabar com a institucioanlização das crianças era matá-las a todas! Deste modo, acabava-se o problema! Mas não basta apenas a resolução do problema, também importa a ética! Todavia, indirectamente, é esta a resolução que vexa propõe... como não se pode acabar com a institucionalização de crianças, matemo-las todas antes que nasçam! Isto resolve o problema? Ou simplesmente mascara-o... deixando por resolver o verdadeiro problema subjacente?
Cumprimentos
 
Cara Kátia Guerreiro choca-me profundamente que assim tão pouco das mulheres portuguesas ao ponto de dizer que fazem IVGs porque dá menos trabalho.
tal como ja foi dito não ha metodos anticoncepcionais perfeitos, mesmo q as pessoas deste país fossem perfeitas e todas seguissem um método, e nunca se esquecessem, e nunca tivessem implulsos, e nunca toamassem medicamentos que possam fazer interferência, e nunca tivessem desequilibrios hormonais, e nunca errassem... os métodos anticoncepcionais existentes hoje em dia falhariam. se 4milhões de mulheres perfeitas tomarem a pílula, 40 mil correm o risco de ficar grávidas... Que resposta dar àquelas que quiserem determinantemente fazer um aborto? deixa-las sujeitar-se às condições desumanas do aborto clandestino? e depois leva-las a um consultório para fazer exames ginecológicos forçados que depois para serão apresentados na barra do tribunal?
 
Se não fosse médica não era grave, agora sendo... pois!
 
Cara Diana Curado:
"não ha metodos anticoncepcionais perfeitos, mesmo q as pessoas deste país fossem perfeitas e todas seguissem um método, e nunca se esquecessem, e nunca tivessem implulsos, e nunca toamassem medicamentos que possam fazer interferência, e nunca tivessem desequilibrios hormonais, e nunca errassem... os métodos anticoncepcionais existentes hoje em dia falhariam." - seria precisamente neste ponto que os métodos contraceptivos NÃO falhariam. Vexa. fala da pílula, mas não considera associar a essa estatística a combinação com o preservativo, espermicidas e com a redução da frequência das relaçoes sexuais... além de não considerar a abstinência em casais que mal se conhecem e que desejam noites de sexo sem consequências (que é algo que nunca se consegue obter... se não fôr pelo aborto, as precauções são necessárias de qualquer das formas por causa das DSTs...)! Como Vexa. diz "40 mil CORREM O RISCO de ficar grávidas"... ou seja, PODEM engravidar mas tal NÃO acontecerá na realidade com a totalidade (estão sujeitas à probabilidade natural)! Além disso, não considera os casais que, tendo tido o SUPREMO AZAR de engravidar, nunca se sujeitariam ou os seus filhos a um aborto. Acho que o número já decresceu exponencialmente
Resta então decompor a frase que disse:

1. "Mesmo que todas seguissem um método." - não é o que sucede! Neste momento, aproximadamente 40-50% das mulheres que abortam NÃO têm um método! Vale a pena investir aqui, não?

2. "Se nunca se esquecessem"... se um casal não quer engravidar, pratica estes métodos por rotina! Se a mulher se esquece da pílula, o homem pode lembrar-se do preservativo e vice-versa (além de que lembraria o outro cônjuge). É uma questão de introduzir o hábito.

3. "Que nunca tivessem um impulso" - mas um impulso é isso mesmo, ou seja, um acontecimento isolado! Como tal, o risco é desprezível! A não ser que o impulso não seja a excepção e sim a regra e então deixa de ser um impulso e sim uma compulsão. Além disso, um impulso não é desculpa que nos ilibe... se eu agredir alguém POR IMPULSO tenho que aceitar as consequências dos meus actos e aceitar que o agredido me pode levar a tribunal e eu não posso alegar o "impulso"! Se o aborto é errado, o impulso não é uma desculpa que o justifique, à imagem do que sucede em situações similares!

4. "Que nunca tomassem medicamentos que fizessem interferência..." - mais uma vez, vexa. apenas pensa apenas na pílula e esquece todos os outros métodos. Por exemplo, se uma mulher está a tomar um antibiótico durante uma semana será pedir demasiado que se abstenha de relações durante esse período (além de que, na doença, não me parece que haja grande líbido)

5. "Que as pessoas deste país fossem perfeitas" - este argumento, peço desculpa, parece um pouco infantil. A maturidade exige que nos tentemos sempre aperfeiçoar, ainda que não o consigamos. Aceitar passivamente a imperfeição é o caminho para o marasmo, para a ausência de evolução, quer pessoal, quer civilizacional!

6. "Sujeição às consequências desumanas do aborto clandestino" - penso que, dado o que disse, muito raros serão os casos em que a contracepção falhe (tão poucos que, na minha opinião, não justificam a mudança de Lei) se fôr levada a cabo sempre com consciência da complexidade e da responsabilidade inerente ao acto sexual! Como tal, assim sendo, as mulheres não se sujeitariam ao aborto clandestino e os embriões não se sujeitariam a abortos DE ESTÉCIE NENHUMA! Talvez eu seja utópico... mas capitular ante o laxismo não pode melhorar o estado actual das coisas!
Cumprimentos
 
Para: Kephas
De: O Curioso

Apreciei a sua argumentação mas continuo a ter enormes dúvidas.

Em primeiro lugar o seu apelo à abstinência. Parece-me totalmente desajustado da realidade (esta ou outra qualquer, seja qual fôr a época). Nem a ameaça propagandeada da SIDA e da Hepatite juntas conseguem isso. Creio mesmo que se o Homem tivesse sido feito como Vexa pretende há muito que a espécie estaria extinta. Sinceramente penso que esse argumento é indefensável à luz dos conhecimentos da Biologia, da Psicologia, da Antropologia e da História Natural.

Pretende também introduzir métodos concomitantes e nomeadamente a contracepção oral e o preservativo. Até poderia ser, mas o problema é que eles falham mais do que o que Vexa pretende. Por exemplo no caso do preservativo masculino faz alguma ideia de qual é neste momento a taxa de contrafacção estimada? E qual a qualidade dos produtos falsificados? Tenha medo. Tenha muito medo. E são vendidos em farmácias!
Fica aqui o testemunho, com valor de anedota se quiser, sobre a fiabilidade de tais artefactos: nos últimos 12 meses, sempre usando o método e seguindo todas as regras, comprando as melhores marcas e os modelos mais seguros, em farmácias das zonas finas da cidade, já vi claudicar por 3 vezes este "método".
No caso da contracepção oral são ainda muitas as contra-indicações e o debate sobre os efeitos secundários está longe de ter terminado.

Na realidade o debate sobre estes métodos põe em causa a boa-fé de boa parte das gentes do "NÃO" (e peço-lhe que não tome isto como um ataque pessoal): é que ainda há bem pouco tempo eram eles paladinos da abstinência ... de contraceptivos.

Saudações fraternas
 
Drª Katia Guerreiro

Não leve a mal, mas eu, como utente de centros de saúde públicos só lhe posso dizer o seguinte: essa de que deveriam ter consultado previamente não sei quem é uma piada de muito mau gosto. O SNS não funciona nem para coisa graves, quanto mais para isso!

E já agora gostava de esclarecer o seguinte: de uma forma talvez um tanto ou quanto apressada pareceu-me sugerir que isto é só chegar lá e pedir a pílula (parágrafo 3º). Como me dizem que é médica pergunto-me se não seria melhor precisar esse ponto. É que vejo com cada vez maior frequência jovens serem atiradas para as consultas de psiquiatria com sintomas de depressão grave após terem-lhes sido receitada algumas das pílulas disponíveis no mercado sem se ter feito um exame prévio cuidadoso.
 
Caro Kephas! Não existe nenhum método anticoncepcional 100% seguro. Não existe! Eu dei como exemplo um dos mais seguros, a pílula, 99% fiabilidade. em 4 milhões de mulheres/casais em que só estivesse em causa a fiabilidade da pílula, e nenhum deles errasse, 40 MIL mulheres podem ficar gravidas! Para nós, do sim, que uma tenha que se sujeitar a um aborto clandestino, ao risco de perfuração do útero, lacereação do colo do útero, choque séptico, iso-imunização Rh, morte... que uma mulher tenha que se sujeitar a isso e ainda a ir para tribunal, é demais!mas se ainda assim quer números das 18 mil mulheres que afirmam ter feito um aborto um ano passado, 21% fizeram-no em consequência de uma falha no método contraceptivo. Devem estas mulheres ser condenadas?
 
Caro Curioso:
Vexa. argumentou, num comment de um post anterior, o "valor cultural das nossas opções" contra posições de determinismo biológico. Consequentemente este "desajustamento" da abstinência relativamente à nossa Biologia, etc... pode ser facilmente vencido por uma política cultural.

Ilustro o que digo com o seu exemplo:a SIDA... eu aponto o caso da estratégia ABC (Abstinence, Being faithful and Condoms - nesta ordem de preferência) no Uganda, que o tornou um dos países africanos com menos casos de SIDA! É certo que os cientistas ainda debatem muito a adequação desta estratégia e muitos ainda não estão convencidos... mas se resultou num país não desenvolvido em detrimento do uso isolado de preservativos (que estão longe de eficazes nas outras nações africanas), não entendo porque não se poderá investir aqui num país supostamente desenvolvido como o nosso numa campanha para desincentivar o sexo irresponsável! Penso que seria muito mais produtivo do que distribuir preservativos em escolas ao mesmo tempo que se permitem campanhas de desinformação dos media derivados de programas de entretenimento!

Não se trata da extinção da espécie! Obviamente não sou a favor da abstinência vitalícia! Todavia, deve concordar que a sociedade actual sobrevaloriza o sexo em detrimento de ideais que, a mim, me parecem mais importantes como o Amor, a Honra e... a Vida! Penso que introduzir um pouco de moderação não faria mal nenhum, sobretudo quando as implicações são tão complexas como decidir sobre um aborto!

Tendo chegado aqui, parece-me que já se reduziu bastante o risco (um dos parâmetros a ter em conta não é só o uso de contraceptivos, mas também o número de casais a ter relações e a sua frequência, obviamente). Os preservativos de que me fala são defeituosos porque de contrafacção... acho, que se deve agir nesse plano. Vexa dirá que é difícil... mas certamente não posso dar o aval para que se matem vidas que eu considero humanas sem que todas as opções tenham sido esgotadas. Por outro lado fala-me dos efeitos adversos dos contraceptivos orais, mas estarmos aqui a contrapôr os riscos desses contraceptivos aos de uma operação médico-cirúrgica complexa como a de um aborto (mesmo em estabelecimentos devidamente especializados) não me parece muito próprio.

Ainda falta muito (penso eu) para chegarmos ao ponto que legitime esta discussão.

Quanto à minha posição sobre os contraceptivos é irrelevante para este debate. Os contraceptivos são legais e não vão ser referendados. A oposição teórica ao seu uso disseminado passava por evitar a mentalidade sexual que temos agora... o que é já irremediável, portanto nunca me verá a mim a discutir isso a não ser com alguém que compartilhe dos meus ideais! Todavia, vi-me forçado a intervir nesta situação do aborto, porque acho que já ultrapassou os limites razoáveis. A destruição de um embrião não é equivalente ao uso de uma prótese de borracha (perdoe-me a graça).

Todavia, agradeço a sua apreciação e a sua resposta em tom moderado. Penso que é este tipo de discussão que realmente permite que os verdadeiros problemas sejam discutidos e os prós e os contras avaliados.

Cara Diana Curado:
O facto de ter tomado as precauções, não implica que o acto não tenha sido praticado em consciência (e que, logo, as consequências dele não devam ser arcadas pelos responsáveis, sobretudo tratando-se de uma vida) nem justifica a ética da prática do aborto. A condenação não se prende com o "ter tomado precauções que falharam" e sim com a "prática do aborto". Independentemente das condições em que foi praticado, não me convenceu da sua legitimidade. Diz que UMA mulher ter que se sujeitar a todas essas complicações e ser julgada é demais. Concordo perfeitamente. Porque significa que UM ser humano foi morto e isso já foi demais! Onde vexa. refere 18 mil mulheres, eu vejo 18 mil crianças. As mulheres sujeitaram-se aquelas condições (tendo em conta que foi mesmo opção da mulher) por escolha própria e os embriões foram sujeitados a essas condições por opção das mães. É claro que excluo desta argumentação as situações em que as mulheres foram a isso obrigadas por circunstâncias adversas e incomportáveis de vida... mas essas resolvem-se, a meu ver, noutro prisma.
Eu sei que esta óptica é difícil de pôr em prática (e até de compreender na lógica ocidental actual). Mas, para mim, se a contracepção falhou, independentemente de ter sido bem aplicada, o correcto é que os pais assumam a vida daquele ser humano como sua responsabilidade. O caminho ético nem sempre (para não dizer: nunca) é o mais fácil. Mas é por isso que somos animais racionais.

De qualquer das formas, vexa. dá-me alguma razão. 21% fizeram o aborto porque os métodos falharam? Para já é preciso saber que métodos falharam! Todas seguiram todas as sugestões que dei no comment anterior?
Por outro lado, tal significa que 79% das mulheres abortaram por motivos alheios a esta discussão! Ou seja aproximadamente 14500 crianças foram mortas por outras razões que não as explanadas aqui! UM versus 14500... é efectivamente muito e num campo onde a intervenção é praticamente nula.

Cumprimentos
 
Caro kephas,
Disse: "excluo desta argumentação as situações em que as mulheres foram a isso obrigadas por circunstâncias adversas e incomportáveis de vida... mas essas resolvem-se, a meu ver, noutro prisma." qual prisma? não percebi. E já agora gostava de saber qual a sua posição perante a presente lei, perante o DIU e a pílula do dia seguinte...E se me pudesse dar uma sugestão para a erradicação do aborto clandestino, que não seja apenas o planeamento familiar e educação sexual porque ja vimos que são suficientes...
 
Ex.mo Kephas,

a questão é que eu não reconheço dignidade juridico-penal a um embrião com 10 semanas.

"O ÚNICO motivo para um embrião não ser considerado um ser humano no actual estado de conhecimentos prende-se com o facto de os pró-aborcionistas terem convencionado que tal iria contra os seus direitos e, ao mesmo tempo, que matar uma pessoa não é aceitável!" - ERRADO,não existem provas cientificas do inicio da vida.

"O embrião é já um ser humano e foi gerado por um acto em que os pais participaram conscientemente (e que, logo, são imputáveis)..." - imagine o caso de dois adolescentes de 14 anos que tem relações consentidas das quais resulta uma gravidez, imaginemos que indesejada (não sendo nenhum dos tres casos previstos no CP como causas de exclusão)- é realmente capaz de afirmar que estas duas pessoas são imputaveis e "como tal, vexa NÃO só não tem direito à liberdade de escolha, como tem a responsabilidade de cuidar daquele ser (que afinal é seu filho)" acha que existe aqui coerencia?

"Não há planeamento familiar 100% eficaz? Há sim! E atiro à mesa uma medida que está intensamente carregada de preconceito, mas que para mim não é assim tão pecaminosa: abstinência! Mas a abstinência não é sempre possível pois não? Certo! Então reduza-se a frequência..." mas desde quando é que a gravidez resulta da frequencia com que se tem relações?é obvio que a probabilidade aumenta mas, caro senhor, tanto quanto sei é perfeitamente possivel uma gravidez resultar de uma unica relação. "e as excepções daí resultantes não justificam qualquer alteração da lei!" - é a sua opinião, que eu, muito naturalmente respeito, mas é apenas a sua opinião, não pode concerteza ter a pretensão de a impor a todo um pais, não acha? "Por esta altura da leitura (sobretudo na parte da abstinência e da redução da frequência), vexa. já se terá desatado a rir, com certeza!" - não vejo o porque deste comentário se não a visão redutora que muitos defensores do não tem dos defensores do sim : não sou uma ninfomaniaca, o sexo não aparece na minha lista de prioridades na vida, nunca tive, como lhes chama relações inconseuqnetes. Não entendo como pode achar que me iria "desatar a rir" ao discutir um tema desta importancia - devo no entanto confessar que a sua perspectiva revela uma certa ingenuidade, tem um delicioso toque de naif.

"E quando vejo mulheres como vexa, que me parece uma pessoa instruída, a falar em direito de escolha sobre outro ser humano, perco completamente a confiança no livre arbítrio!" - tem noção da gravidade do que acabou de afirmar? V.ª Exª acabou de dizer que perde a confiança na capacidade de cada ser humano praticar e escolher as suas acções?realmente era tudo muito mais fácil de bastasse agitar a sua varinha de condão determinista, forçando todos os seres deste mundo a obedecer as suas vontade e a acreditar nas suas crenças...
 
perdão, o comment anterior, era meu.
cumprimentos

Ana Guerra
 
Cara Ana Guerra:
"a questão é que eu não reconheço dignidade juridico-penal a um embrião com 10 semanas."
Sublinho esta sua frase, porque me parece estar na base das posições que adopta. Aliás, numa série de comentários em que já nos encontrámos, a própria Ana disse que considera esta a questão fundamental (contudo nessa altura nada me disse relativamente ao que lhe expus sobre isso).
Antes de mais, permita-me que faça esta correcção: na fase de desenvolvimento em que se encontra às 10 semanas, já se chama feto e não embrião. Mas este é apenas um detalhe. O que eu realmente gostaria de saber é se a Ana Guerra considera que o ente vivo resultante da união dum humano homem de dum humano mulher não é humano. Por outras palavras, se considera que abortar um feto às 10 semanas não é terminar a vida dum ser humano. É que, se a resposta que der a esta questão for negativa, não vejo porque se sente no direito de dizer que não reconhece dignidade juridico-penal ao feto de 10 semanas. Ele não tem o direito de prosseguir o seu percurso de vida humana, como qualquer outro ser humano?
Agora uma opinião minha: parece-me que quem nega a humanidade da vida gerada, nega uma evidência de tal forma flagrante que me é impossível compreender como alguém pode considerar isto relativo, arranjando para o justificar critérios perfeitamente arbitrários, que por isso mesmo não têm solidez para fundamentar o que quer que seja. Há muitas questões existenciais que são por natureza susceptíveis de causar dúvida e entendimentos diversos, mas esta não me parece que seja uma delas. Além disso, acho também curioso (intrigante) como as revelações científicas são unanimemente consideradas contributos decisivos para o conhecimento da realidade, mas no caso da vida humana intra-uterina são desvalorizadas e desprezadas.

Cumprimentos,
Rui
 
Cara Diana Curado:
Não quer que eu fale em planeamento familiar e em educação sexual. Seja. Apesar de, em Portugal, a sua ineficácia não se dever, quanto a mim, aos métodos em si, mas a uma falta de investimento (quer político, quer pessoal) neles.
Então, outras propostas:
1. Agilizar e promover a adopção.
2. Aumentar a ajuda económica às mulheres com filhos e problemas sociais concomitantes (sobretudo se for uma mulher sozinha).
3. Criar protocolos académicos e laborais mais flexíveis às mulheres nestas situações.
4. Implementar uma rede de cuidados a crianças às quais essas mulheres pudessem recorrer durante o dia.
5. Uma maior vigilância por parte do SNS dessas mulheres, com aconselhamento psicológico (já que não quer que fale de planeamento familiar porque aí seria o ideal).
Vexas dirão que é utópico, principalmente com o país em recessão... todavia estas medidas terão que ser implementadas mais cedo ou mais tarde pois a liberalização do aborto não resolve os problemas que a ele conduzem. Estas são apenas algumas das propostas principais de uma organização norte-americana denominada "Feminists Pro-Life" cujo lema é "Women deserve better than abortion". http://www.feministsforlife.org/

Cara Ana Guerra:
1. Mantenho o que disse. Desde a fecundação há VIDA e ela é HUMANA. Vexas introduziram, a meu ver, parâmetros que nada têm a ver com a evidência científica, argumentando depois que não há "provas científicas". Não estou a dizer isto num tom agressivo, simplesmente ainda não compreendi o que vexas entendem por vida humana: um embrião de 11 semanas não é menos vida humana que um de 10, bem como não o é um recém-nascido ou uma criança de 1 ano, que não possuem esses factores "sociais" que vexas utilizam para definir "humano". E questiono-me se, se o problema do aborto não existisse, haveria alguma dúvida que a vida se inicia na fecundação.

2. "imagine o caso de dois adolescentes de 14 anos que tem relações consentidas das quais resulta uma gravidez, imaginemos que indesejada" - mas este é precisamente o caso mais preemente para mim que se promova a abstinência. Não percebo como a sociedade pode não considerar estes jovens imputáveis para criar um filho, e considera-os inimputáveis para praticar o acto que a ele conduz. Vexa. dirá que não é verdade, que ninguém promove o sexo adolescente. Todavia, é o que eu vejo todos os dias com as constantes campanhas de desinformação dos programas de entretenimento (que, para mim, são as grandes responsáveis pela falência da educação sexual nos jovens) ou quando se promovem campanhas de distribuição de preservativos nas escolas. E convenhamos, a sociedade tornou-se complacente nestes casos...
Quanto ao facto de vexa "se ter desatado a rir" lamento se a ofendi, mas o que eu disse não foi por preconceito, nem por ingenuidade, foi por experiência própria... não é a primeira vez que discuto este tema.

4. Também peço desculpa se a ofendi no ponto da confiança... simplesmente considero que há situações em que estão em jogo coisas mais importantes que a liberdade! Apesar de reconhecer que há situações em que as mulheres abortam por necessidade, ainda não compreendi a diferença do aborto relativamente aos outros crimes para que seja legítimo decidi-lo de acordo com o "livre arbítrio" de quem o pratica em detrimento do "livre arbítrio" dos restantes! Na minha opinião (e espero que não tome isto como um insulto pessoal), penso que a vossa concepção de liberdade é que é um bocado naif, no sentido em que está contagiada de um enorme optimismo em relação a todas as mulheres (excessivo na minha opinião, mas posso estar errado)

Cumprimentos
 
Cara Diana Curado, Ana Guerra e Curioso:
Podem responder ao meu comment anterior, mas não aguardem resposta da minha parte. Tal não significará falta de argumentos mas por motivos profissionais, vejo-me obrigado a afastar-me deste blog nas próximas 2 semanas (a não ser que encontre algum tempo, esporadicamente, o que, todavia, será difícil)
Cumprimentos a todos
 





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