Declaração de voto NÃO

Acabo de receber uma declaração de voto não, na minha caixa de email, que aqui publico, depois de obter a devida autorização do seu autor:

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Caras(os) amigas(os)

Mais uma vez, vou votar Não no próximo Domingo. Muitos de Vós já o sabíeis, outros certamente desconfiáveis, mas cá está a madrugada a irradiar sobre as suposições: vou votar Não no referendo!
Tinha prometido a mim mesmo guardar algum recato nesta campanha. No entanto, chegado ao último dia e vendo o chorrilho de disparates ditos, não consigo mais!... BASTA!!! E, ou porque não vou votar Não pelos motivos que estarão a pensar (se pensarem em motivos religiosos poupem-se e poupem-me ao trabalho de vos repetir a frase velha de séculos: “A César o que é de César, a Deus o que é de Deus”!!!), ou porque não voto Sim por motivos diversos daqueles que também suporeis, aqui Vos envio a explicação – sim, reconheço também tratar-se de alguma forma de campanha, mas como quase todos os jornais e televisões e afins a estão a fazer pelo Sim, permitam-me que na justa medida defenda a minha dama, anunciando embora, em primeiro lugar, qual o chão onde piso; se todos os media assim agissem, teríamos uma democracia mais rica e verdadeira. Mas isso são contas de outro rosário...
Não quero saber quem já abortou, quem está em vias de, quem irá fazê-lo no futuro. Sei de algumas pessoas que o fizeram ,conheço os motivos e não quero agora polemizar sobre o tema (nem acho que deva!). Sou por princípio contra, o que não implica que, por isso, ande por aí a atirar pedras aos outros – e esse é um dos maiores equívocos desta campanha.
Voto Não a uma pergunta concreta - Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado? - porque discordo da solução apresentada.
Aliás, parece-me hipocrisia que me venham todos dizer que são contra o aborto (coisa que depois, misteriosamente, não se revela no sentido de voto, apresentando aquela balela do “eu sou contra mas não posso impedir quem quer fazer”... Pois, está bem, mas como o meu voto é exactamente a expresão do meu pensamento sobre, parece-me que a cisão, hábil, mas tonta – perdoem-me os que assim pensam! - é caso para os psicanalistas estudarem) e depois apenas tenham a apresentar uma mão cheia de nada como solução.
Não, não concordo, porque a fazê-lo teria de considerar que todos os motivos são válidos – o que não acontece, por exemplo, no caso que a SIC, numa das suas brilhantes reportagens (ou não!), por acaso trouxe à antena: a Senhora que fez mais de 20 abortos porque queria que os 2 filhos que já tinha andassem num colégio interno, e não gostava de usar contracepção!!!
Isto - perdoem-me os que pensam diferentemente – é para mim inaceitável! Bem como o aborto por causas económicas (será que já baixámos os braços na luta contra a pobreza e desigualdades sociais??? Mas onde está a esquerda??? Onde está a tão apregoada igualdade??? E a solidariedade??? Voto Não porque “um descuido”, “ele não gosta de usar preservativo”, “a pílula engorda”, “deu-nos os calores” não são, para mim, motivos que justifiquem. (podem rir-se a lê-los, mas o que é certo é que o Blogue do Sim está cheio deles como causas justificativas... e o que é certo é que, ganhando o Sim, estes vão ser motivos tão válidos como outros quaisquer que nos apresentem (ou não!).
Para mim, a responsabilidade tem de ser exercida antes, no momento da decisão da relação sexual (aliás alguns destes argumentos menosprezam a autodeterminação sexual, para no fim, reivindicarem uma suposta liberdade e vontade livre), não depois, como decisão de recurso para uma decisão (ir)responsável e (ir)reflectida.
Estais dispostos a aceitá-los? É essa a sociedade que preconizais? Se sim, votai em consciência, Sim! Se não votai em consciência, Não! Mas antes, atentai nos textos que vos mando: um são as razões de um liberal para votar não (aquele com o qual mais me identifico); o outro é a declaração de voto do mesmo liberal (Rodrigo Adão da Fonseca); o outro é um texto da Rita Barata Silvério, a famosa (sabe Deus porquê?) “Rititi”, também publicado na Atlântico e que considero inqualificável, mas com um mérito: mostra bem o que está em causa (e, confesso-vos, se estivesse em dúvida, depois de ler o texto dela, votaria Não com toda a certeza!!!).
Peço-vos que os leiam, que meditem, que se informem – o Blog do Não e o Blog do Sim são boas fontes – e que votem em consciência. Sem ceder a extremismos, sem acreditar em tudo os que nos dizem nas várias campanhas, enfim: partindo de um certo cepticismo para encontrar a decisão que Vos pareça mais correcta.
Luís Pistola

Comentários:
Ha' muito tempo que nao via estas formas verbais...

"Shim" senhor, aqui e' que se veem verbos com respeito.
 
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Oh Mafalda, congratulo-me que leia este extenso e-mail, mas peço-lhe que leia também os comentários aos seus postes em baixo. Já rebati um ou outro argumento seu e coloquei uma pergunta e nada...era bom vê-la aqui a discutir as suas ideias
 
Selection
Votes
Sim 0% 12
Não 100% 9.340.780
Não sei 0% 15

9.340.807 votes total


VIVA O NÃO ! VAMOS GANHAR !
 
Caro outro espírito cristão,

passei os últimos três meses a debater ideias e a responder a perguntas que me colocavam.
Para os seus comentários, encontrará argumentos ao longo dos textos que aqui fui publicando.
Faça-me o favor de os ler com atenção, porque estou sem tempo (e sem paciência, confesso) para lhe explicar que um óvulo não é igual a um embrião.

Mafalda
 
um indeciso pergunta humildemente:

se é mesmo errado abortar, digam-me com toda a clareza: quando há uns anos atrás (no Portugal de Salazar por exemplo) não havia planeamento familiar, defenderiam que uma mulher deveria ter 30, 40, 50 filhos?
 
Mafalda
obrigado pela esclarecedora resposta

só mais 3 coisas:
amanhã também publica posts? não está farta?
um óvulo fertilizado também é diferente de um óvulo não fertilizado? um embrião é diferente de um feto ou de um bébe?
Sabe o que eu acho desta questão de quem apareceu primeiro, o ovo ou a galinha? É que é a menos importante para o objectivo que é diminuir o número de abortos.
 
"...Pois, está bem, mas como o meu voto é exactamente a expresão do meu pensamento sobre..."
Não posso estar mais em desacordo...para mim e porque se trata de um voto que têm implicações para toda a sociedade, e não só para mim, esse meu voto deve incorporar essas preocupações, e não só o que eu penso sobre a questão. É precisamente esse o problema, a meu ver, das pessoas que votam não, é um voto egoista! Tentam "disfarçar-se" de guardiões de fetos, mas no fundo querem apenas limpar a sua consciência, sem o minimo de solidariedade para com o próximo
 
"Caras(os) amigas(os)
Mais uma vez, vou votar Não no próximo Domingo."

Ficamos a saber que o nosso amigo Luís Pistola, todos os Domingos vota Não, numa merda qualquer...
Talvez , na verdade, não seja todos os Domingos e talvez lá mais pra frente ele explique... mas era o que faltava, eu ler até ao fim uma prosa deste calibre! Ele é muito "ide", muito "desconfiáveis", muito "votai", portanto antes que chegue à parte do "arrependei-vos e oremos" fico por aqui.
 
«Fica claro, assim, que há duas ordens de razão para o meu voto NÃO:A primeira, porque, em consciência, me repugna transformar o acto abortivo numa prática comum, como se eliminar uma vida fosse algo tão simples e normal como retirar um quisto ou desencravar uma unha. Ou ainda mais simples e banal do que isso.A segunda, porque a campanha do Sim não me pareceu séria nem frontal. Fugiu como o diabo da cruz de aspectos que não podem ser ignorados – ou que só podem ser ignorados por quem se sente incomodado com a verdade.E se alguns defensores do Não foram – e são – hipócritas, a campanha do Sim não se ficou atrás.Afinal, meus amigos – e doa a quem doer – um feto não é uma verruga.

Crónica de: João Carlos Pereira (militante do Partido Comunista Português)».
in, http://www.relances.blogspot.com/
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