DAR E TIRAR

Na semana em que o senhor Presidente da República afirmou ir debruçar-se sobre a pergunta referendária aprovada pelo "bloco central" e pelo BE, convém lembrar aos nossos leitores esta e aquela que, em nosso entender, é a correcta. Isto porque a pergunta oficiosa, lida freudianamente, tem muito que se lhe diga. Ao pretender ser "modernaça" - invocando o velho arquétipo feminista dos anos sessenta, altura em que era "chique" queimar o "soutien" nas ruas -, não quer discutir o essencial. E o essencial, por mais voltas que se dê, é saber se a cidadania concorda com a liberalização total do aborto, por vontade exclusiva da "liberdade da mulher", se realizado até às 10 semanas de concepção. Como me dizia ontem um amigo, não posso tirar aquilo que não dou. Neste caso - no meu caso - a vida.

Comentários:
Mas a mulher pode, é ela que dá (dará) a vida, como a dá também a pode tirar então, boa !!!
Estou esclarecido, vou votar sim!
 
Oh Pedro Almeida: não seja primata. O texto usa a primeira pessoa em sentido abstracto. O "não posso tirar aquilo que dou" refere-se ao Homem. Percebeu ou precisa de explicador?
 
Aborto agrava envelhecimento da população
Muitas vezes, a ironia permite encarar problemas sérios, de maneira ligeira, de forma a apresentarem-se mais simples e compreensíveis. Na sociedade nacional em que nos vemos narcotizados pelo futebol, pela Casa Pia e, agora, pelo referendo do aborto, somos abusados na nossa abulia, desinteresse, conformismo, indecisão, resignação, e deixamos andar o barco ao sabor das correntes. Mas é altamente conveniente que sejamos estimulados a observar os acontecimentos, procurando descortinar a linha condutora que os possa integrar numa directriz claramente definida ou, pelo contrário, as incoerências e contradições que, infelizmente, são mais frequentes do que o desejável.
Os «sábios» da Segurança Social, da Saúde e das Finanças têm-nos bombardeado com referências, em tom lamentoso, ao crescente envelhecimento da população. Nesse tom, bem caracterizado, inscrevem-se logicamente vários sinais de preparação de soluções para obviar ao envelhecimento e ao peso que representa nas finanças dos departamentos referidos. Já em curso estão as medidas economicistas que dificultam a sobrevivência de reformados e idosos no âmbito destes ministérios. São bem conhecidos, o que dispensa dedicar-lhes mais espaço. Parece aproximar-se a legislação sobre o «suicídio assistido» na forma de recusa de medicamentos que prolongam a vida. Será um passo difícil de limitar, porque a decisão poderá facilmente deixar de ser do próprio e passar a sair da cabeça de um herdeiro ou de uma instituição oficial que também beneficia com o óbito. Depois, já sem grandes problemas morais, com os corações mais empedernidos, valorizando mais os euros do que as pessoas, nada custará aceitar a eutanásia que rapidamente evoluirá para o genocídio dos que teimam em continuar a viver, acima de um nível etário fixado que irá baixando à medida que as finanças o tornarem conveniente para resolver o défice e a dívida pública. Desse genocídio por idades, facilmente se passará para o holocausto dos reformados logo que adoeçam.
Seria uma forma que, agora, nos parece brutal, mas que se enquadra no economicismo e no desprezo pela vida dos outros que se verifica em alguns sectores do Estado, quando levado às últimas consequências, perante a apatia e resignação do povo.
Mas o que é realmente chocante, por contrariar esta evolução lógica já bem visível, por se tratar de uma incoerência e de uma contradição, sem qualquer lógica é o APOIO AO ABORTO por parte do partido do Governo. De facto, o aborto contraria o rejuvenescimento da população, o qual exige mais nascimentos. E as contradições e decisões em zigue-zague do Poder tornam-se demasiado preocupantes e caras ao erário.
Para evitar esses inconvenientes do aborto, haveria que compensar cada IVG com a eutanásia imposta pelo Poder ao mais idoso que usufruísse de mais do que um reforma milionária (superior à média nacional). Dessa forma, mantinha-se o equilíbrio da idade média da população e criar-se-ia uma situação de alívio não negligenciável nas finanças públicas. Mas , atenção, nada de exageros nas esperanças ou receios, porque os mais alvejados seriam os antigos políticos e por isso os actuais detentores do Poder não vão cair nessa porque não são tão estúpidos ao ponto de assinarem tal sentença de morte a prazo.
Mas mantém-se o mistérios de lamentar o envelhecimento da população e de apoiar o aborto. Na nossa sociedade, fomenta-se a irresponsabilidade. Todos querem ter uma vida de risco, no desporto radical, na condução e no sexo e, se as coisas correm mal, acham que têm direito a serem tratados com o dinheiro público. Ninguém assume a responsabilidade das suas loucuras. Quanto ao sexo, há o copo de água, o calendário, o método Ogino-Knaus, a velha pílula, o preservativo, a pílula do dia seguinte. Mas, desprezam tudo isso e querem fazer contracepção com base no aborto em hospitais por conta do SNS. Assentar a contracepção no aborto é um crime contra a saúde das jovens mulheres e contra a generalidade dos cidadãos, por serem ocupadas camas de hospitais e gastos dinheiros que seriam necessários a pessoas doentes naturais e inevitáveis.
 
Posso pedir-lhe que me explique o que quer dizer com "lida freudianamente"?
AMP, médica psiquiatra
 





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