A hipocrisia e o tiro pela culatra

O João Pereira Coutinho alerta, hoje no Expresso, para a maior hipocrisia de toda a campanha em curso a propósito do próximo referendo. Diz o João "que seria interessante perguntar aos paladinos das dez semanas o que tencionam eles fazer quando aos tribunais portugueses começarem a chegar as mulheres das onze, das doze ou das treze semanas".

Ora, eu ensaio resposta. Um dia, se o "sim" ganhar, estaremos de regresso a este preciso momento, discutindo uma alteração legal que permita o aborto livre até às 16 ou 20 semanas, para acabar com esse flagelo do aborto sem condições e dos julgamentos das mulheres. Mas isso, claro, será deixado para daqui a alguns anos. Entretanto, se o "sim" ganhar, continuará o engodo, agora em forma de triunfo. Dir-nos-ão que Portugal é finalmente um país civilizado (oh, mal sabem eles), onde a "saúde reprodutiva" é uma realidade e nenhuma mulher que aborta é julgada. Aliás, segundo a doutrina antropologicamente mais optimista, o aborto passará a ser, basicamente, uma realidade arcaica, datada historicamente, uma excentricidade sórdida de um passado longínquo e rudimentar. E este é o grande perigo. Se a isto se resumem os principais argumentos do lado favorável à mudança da lei, a luta contra o aborto sem condições - que permanecerá - será abandonada por aqueles que, apesar de por ela menos fazerem, são quem mais lhes dá amplitude e ressonância social, preocupados que estarão, então, em confirmar as suas previsões.

A eventual vitória do "sim" será a vitória do aborto clandestino, que regressará à penumbra onde se sente bem, longe dos salões, das visitas e das pratas, esquecido atrás da porta dos fundos da memória, como nas famílias dos livros de Agustina.

Comentários:
Porque voto NÃO:

Sou contra o aborto e contra a despenalização (mas contra penas estúpidas de prisão) porque:

1º. As ciências não são unânimes na definição do conceito "VIDA" apesar de o intuir e de a estudar.
(se alguém souber do contrário agradeço que mo diga)
Dessa forma a ciência tem difculdade em ter uma posição objectiva e universalista sobre a interrupção da geração de uma VIDA.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Vida

2º. Não existe um conceito único e também universal para o conceito "SAUDE".

O conceito varia de acordo com algumas implicações legais, sociais e econômicas dos estados de saúde e doença.
O mais aceite é o da Organização mundial de Sáude que diz :
"um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença.".
Separa o "mental" (imaterial) do "físico" (material).

3º Conclui-se através de um estudo cientifico que "Abortos voluntários podem resultar em traumas psicológicos que levam pelo menos cinco anos para serem superados" http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/story/2005/12/051212_abortoms.shtml
As causas mais profundas desconhecem-se pois estão no âmbito das questões de indole mental (espiritual) que a ciência ainda pouco conhece.

4. A Ciência Médica está em processo de mudança de paradigma no que concerne à profundidade das questões de índole espiritual.
(ex. mudança de paradigma: inclusão recente no Código Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde -CID 10 - no ponto F44.3- "Estados de transe e possessão"... http://www.datasus.gov.br/cid10/webhelp/f44.htm).


5º O homem é constituido por Corpo (material) e Espirito (imaterial) e que muito pouco conhece sobre si mesmo.

6º A Ciência Moderna ainda não me deu resposta como se processa a fusão da Mente (espirito) com o Físico (matéria).

7º Parece-me lógico aceitar a probabilidade (por mais reduzida que seja) que essa fusão se inicie no momento da fecundação com a consequente multiplicação das células.

8º Adicionalmente desconheço as consequências que podem advir pela minha contribuição, ainda que indirecta, para a interrupção desse processo (aborto).

9º A minha mente (espirito) intui-me a racionalizar de acordo com as teorias de probabilidades pelo que meramente do ponto de vista racional (teoria das probabilidades de Pascal) opto por não contribuir ainda que indirectamente para a promoção legal do aborto já que essa decisção me colocará num campo de probabilidade cujas consequencias desconheço mas que me podem afectar negativamente.

10 º Os médicos fazerm o juramento de Hipocrates que diz
"(...)não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva(...)
http://www.gineco.com.br/jura.htm
 
Absolutamente verdade. E falta referir outro aspecto: se o SIM ganhar, muito provavelmente não haverá mais referendos sobre o aborto. As próximas alterações à lei serão feitas no parlamento (como muitos políticos sempre quiseram), e daqui a uns anos teremos os deputados a votar a despenalização do aborto até às 16 semanas, depois 20, e por aí fora, sem referendos. Haverá sempre uns anos de intervalo, mas a propaganda é cíclica, e o "flagelo do aborto sem condições e dos julgamentos das mulheres" continuará até o aborto ser totalmente liberalizado, sem limites de tempo.

A razão é muito simples: quem permite o aborto até às 10 semanas logicamente também permite até às 20, ou muito mais. E haverá sempre mulheres a querer abortar até perto do nascimento, tal como acontece em todos os países "evoluídos" que permitem o aborto.

Se o NÃO ganhar de novo, já todos sabemos o que vai acontecer: 2 ou 3 anos depois teremos outro referendo, e depois outro, até os políticos conseguirem um SIM, e poderem finalmente instituir a sua "solução final".
 
É o primeiro passo para a liberdade de matar mais próximo do parto? Serão precisos quantos referendos para que a coitadinha da mulher tenha a ligitimidade de optar pela não vida do filho às 30 semanas? Afinal as mães das Vanessas e muitas outras, são as infelizes e as vitimas é que são o incómodo...
 
2 coisas:


1.Aprecio imenso o esforço intelectual e a clareza do raciocínio da sra sr? Gana. Até cita Pascal! Concordo absolutamente consigo.

2.Gostaria de lembrar aos restantes que não há prova de que existe alguma tendência para aumentar a quantidade de semanas onde se pode abortar. Na Inglaterra até existe um retrocesso no processo.
 





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